Muito se tem falado sobre o documentário Mondovino de Jonathan Nossiter, filme que se propõe a discutir os efeitos da globalização no mundo do vinho. Primeiramente, tenho para mim que não se trata de um documentário. Posso estar partindo de um conceito tecnicamente errado, mas penso que documentário é um filme que se propõe a expor, de forma neutra, um determinado fato. Isto é, na medida em que o filme é utilizado para defender um determinado ponto de vista ele deixa de ser um documentário no sentido estrito, tal qual os filmes de Michael Moore. Tendencioso talvez seja uma palavra forte para Mondovino, mas neutro certamente ele não é.
Pois bem. Ainda que Nossiter sustente que não foi essa sua intenção, a leitura que se faz do filme é a de que há uma defesa romântica da individualidade dos pequenos produtores, que ainda resistem de forma quase heróica em um mundo cada vez mais padronizado. O pequeno produtor seria a personificação do terroir, das tradições, capaz de criar vinhos de personalidade e caráter, fruto de seu empenho e trabalho árduo. Já as grandes corporações, sob a consultoria de figurinhas carimbadas do mundo do vinho, seriam os arautos da homogeneização.
Há apenas uma parcela de verdade nessa visão. De fato, o que há de mais encantador no mundo do vinho é a diversidade. Por mais que se beba, sempre há novas surpresas, novas zonas produtoras, outras antigas se reinventado etc. É isso que faz do apreciador do vinho um eterno apaixonado. Nesse aspecto, é realmente desejável uma diversidade de produtores, com estilos e métodos próprios. Todavia, não se pode ter um visão maniqueísta e ver as grandes corporações e os “flying winemakers” como grandes vilões da história. Não há como negar que a tecnologia, muitas vezes impulsionada por estes mesmos grandes produtores, contribuiu de forma positiva para a qualidade do vinho em geral. E a entrada de tais produtores novomundistas no jogo foi benéfica até mesmo por acirrar a disputa pelo mercado e exigir de todos maior competitividade. É opinião quase unânime que hoje se bebe melhor do que antigamente e parte disso se deve também às contribuições de pessoas como Michel Rolland.
Antigas regiões se viram obrigadas a sair do berço esplêndido que é a tradição e mostrar, efetivamente, que seus vinhos são bons. Pequenos produtores (mais visionários), buscaram entender cientificamente o processo de vinificação e valer-se da tecnologia para aperfeiçoar seus vinhos e fazer frente aos grandes produtores. E isso não se confunde, necessariamente, com perda das características particulares de seus vinhos. Aliás, tipicidade e caráter são conceitos muitas vezes utilizados como desculpa para justificar defeitos. Freqüentemente parecem refletir uma idéia insustentável de contrariedade à utilização de meios modernos de vinificação para aprimorar o vinho. É preciso aliá-los com a qualidade e a utilização parcimoniosa de métodos modernos.
Eu prefiro seguir o pensamento de Jean Robert Pitte, geógrafo e autor do livro Bordeaux, Borgogne, les passions rivales, citado na revista Wine Style nº 04: “Existem os grandes vinhos feitos por multinacionais e as zurrapas lançadas pelas pequenas e simpáticas explorações”. Realmente, não podemos crer que Krug, Dom Perignon e Cheval Blanc são frutos de um movimento de despersonalização do vinho, pelo simples fato de serem parte da gigante LVMH. Por outro lado, não vejo porque defender a permanência de uma romântica produção artesanal e familiar, quando ela resulta em vinhos medíocres. As coisas não são tão simples assim.
Na Expovinis do ano passado, Nossiter comandou com o produtor borgonhês Etienne de Montille uma degustação. Nela, o vinho San Pedro de Yacochuya, assinado por Michel Rolland, foi comparado a um monstro mecânico ou a uma mulher moldada, siliconada.
Pessoalmente, gosto do vinho. É verdade que o estilo de vinhos alcoólicos e com muita concentração de fruta, que se mostra muito madura e opulenta, tem-se tornado um modismo cansativo. Mas dentro desse estilo, não há como reconhecer que o SPY é um vinho bem feito. Se lembra um Porto em seus aromas, se foi fabricado com técnicas modernas de micro-oxigenação, isso pouco importa. É um estilo (até pouco tempo raro) e como tal se enquadra no espectro de diversidade dos vinhos. E daí que não é fácil achar um prato que o acompanhe? Vinho não precisa, necessariamente, ir à mesa. Que se beba ele sozinho então, na companhia de amigos e em um dia frio de inverno.
O que é condenável é a massificação de tal estilo e a monotonia que isso causa, tal qual ocorreu com vinhos excessivamente amadeirados alguns anos atrás. Mas atribuir isso aos grandes produtores é ver o mercado como um rebanho de cordeiros que não geram demanda, apenas aceitam a oferta como ela é apresentada.
O lado romântico de Nossiter fica ainda mais exposto quando ele condena a pontuação de vinhos dizendo que "pontuar vinhos é o mesmo que pontuar pessoas" e que "O vinho é o espelho das pessoas e da individualidade humana." Mesmo considerando a complexidade e a diversidade de todos elementos que permeiam o universo do vinho, ele é um produto posto no mercado, e não há razão para sustentar que somente ele não seja passível de uma análise mais objetiva. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Penso que uma nota não deve ser entendida em termos absolutos: é indispensável que ela seja interpretada em conjunto com as impressões e com a proposta daquele vinho em específico. A nota, sozinha, informa pouco. Mas daí a sustentar que ela é um absurdo é querer relativizar tudo, abrindo espaço para o mau vinho.
Enfim, que se defenda a diversificação, mas que não se deixe de ter em mente os benefícios que os grandes produtores geram para o aumento do consumo do vinho e a contribuição dos flying winemakers para a qualidade da bebida nos dias de hoje.