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Bacco, ora pro nobis
Mistério bem degustado
Christovão de Oliveira Junior

Potente, instigante e de grande impacto. Assim é o primeiro contato do leitor com O vinho mais caro da história, título de um livro recentemente publicado no Brasil e de grande sucesso mundial. Sua trama é aparentemente simples: em 1985, uma garrafa de Château Lafite 1787 pertencente à adega do presidente americano Thomas Jefferson é leiloada em Londres e atinge o valor recorde e estonteante de US$ 156 mil. O choque causado por essa quantia no mundo dos leilões de vinhos antigos só não é maior que o impacto causado pela posterior descoberta de que a história possivelmente não passaria de uma fraude, e que outros vinhos vendidos a preços astronômicos também podem ter sido resultado de falsificações.

Como se estivesse servindo um antigo Bordeaux de classe, o autor da obra, Benjamin Wallace, desenvolve o tema da legitimidade da garrafa, aproveitando para mostrar a evolução de leilões do gênero, mostrando como os preços ultrapassaram, em muito, o limite do razoável. À medida que se progride na leitura, vai-se tendo uma ideia de como grandes vinhos de Bordeaux, Rhone, Champagne e Borgonha passaram a fazer parte somente das mesas daqueles que podem alugar um jato e cruzar oceanos apenas para participar de uma degustação. Wallace conta também como as megadegustações servem como item de competição entre pessoas que, mais que apreciar um bom vinho, querem afirmar seu poder e ostentar relíquias engarrafadas.

O livro evolui como um belo Château Lafite, e traça um quadro vívido de como o vinho de classe deixou de ser mero produto agrícola para se tornar fonte de uma verdadeira loucura que envolve milionários e novos-ricos que não enxergam limites para seus gastos. Descreve degustações que a maioria dos enófilos sequer imagina existir, e nas quais é até difícil acreditar. Eu, por exemplo, não consigo visualizar como seria uma degustação de 125 safras de Château D'Yquem. Vou repetir para que você não pense haver um erro de grafia: 125 safras diferentes de um dos vinhos mais caros do mundo.

O livro narra diversas degustações como essa, traz muita informação sobre vinhos classificados como especiais e também sobre técnicas científicas para a determinação da idade de um vinho. Aliás, uma das melhores partes é a descrição dos grandes esforços despendidos na tentativa de comprovar a idade da tal garrafa do título e a autenticidade das iniciais TJ (de Thomas Jefferson) nela gravadas. Esforços que envolveram investigadores do FBI e da Scotland Yard.

Pena que a história que Benjamin Wallace nos apresenta, tão empolgante até aqui, se revele apenas razoável no que deveria ser um grand finale. Neste livro de mistério e suspense ninguém morre, ninguém é preso, e ações na Justiça não têm desfecho. O relato termina e fica a sensação de que estão faltando diversas páginas. Certamente, o tal vinho não era, definitivamente, um Lafite.

Apesar do desapontamento final, recomendo enfaticamente a leitura de O vinho mais caro do mundo para aqueles que apreciam essa bebida fascinante e gostam de conhecer detalhes da sua história. Wallace fez uma pesquisa primorosa sobre o mundo dos vinhos antigos e construiu uma narrativa pontuada por personagens célebres do meio enológico - milionários, jornalistas, críticos. Entre esses últimos, destaque para as figuras de Robert Parker, Jancis Robinson e principalmente Michael Broadbent, que além de crítico foi o leiloeiro não apenas da garrafa misteriosa, mas de diversas outras também suspeitas - e do mesmo dono e "descobridor".

Para aqueles que apreciarem a leitura, uma boa notícia: a produtora de filmes do ator Will Smith já adquiriu os direitos da história, para levá-la ao cinema. A chance de que o filme seja tão agradável quanto um Lafite antigo é boa.






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