E a hora finalmente chegou. Nem foi preciso insistir, ao primeiro chamado fomos todos para a mesa com a ansiedade estampada em olhares e gestos.
Antes que os Petrus fossem servidos o Professor Célio Alzer com todo o seu conhecimento e simpatia fez uma pequena palestra falando sobre o Pomerol e principalmente sobre o Chateau Petrus. Enquanto ouvíamos a palestra foi servido um Champagne Michel Gonet Brut Reserve. Bela introdução que veio integrar perfeitamente o conjunto da noite.
Começa o serviço dos vinhos e a excitação atinge seu ponto mais alto. A ordem escolhida para os vinhos foi da safra mais antiga, 1981, para a mais nova, 1999.

O primeiro copo servido teve o efeito de uma linha mágica que ligava todos os corações presentes. O vinho mais parecia uma hóstia servida para nossa comunhão. Eu, pelo menos, olhava para a taça com uma reverência total e um encanto justificado.
Este primeiro vinho veio para nos mostrar mais uma vez (se é que isto é preciso) que a verdade está nas taças. Muito do que esperávamos não foi o que encontramos na taça. Ele veio, sobretudo para surpreender. Apesar de a coloração estar inteiramente dentro do que esperávamos, com sinais evidentes de uma bela evolução, o nariz trouxe o inesperado: muito pouco de aromas de evolução e nenhum aroma de origem animal. Estava presente uma fruta vermelha madura exuberante com ligeiros toques de bosque e frutas secas. A boca do vinho era excepcional, mas correspondia ao nariz. Muita fruta com um ataque doce, muito equilíbrio e uma acidez ainda viva.
Confesso que já ouvi muitas definições sobre vinhos de exceção, mas, cada vez mais fico com minha definição (que até pode ter se originado em algo que li ou ouvi) um bom vinho é aquele que agrada meu corpo; um vinho excelente é aquele que agrada meu coração e um vinho excepcional é aquele que me toca a alma, que por alguns momentos me faz levitar. Degustar um vinho excepcional é um momento único no qual corpo, mente, coração e alma desfrutam uma comunhão única.
O segundo vinho veio para dar continuidade a estes momentos mágicos. Agora sim, todos aqueles aromas que esperávamos encontrar no primeiro vinho, graciosamente faziam parte da segunda taça. Em uma das últimas degustações que participei, frente ao comentário de um dos participantes, o Professor Julio Anselmo com a sua habitual perspicácia e agudeza replicou dizendo que o fato de bebermos tantas bombas frutadas e amadeiradas tem distorcido nossa capacidade de reconhecer potência e elegância tal e qual elas devem ser. Ah meu amigo e Mestre Julio, lembrei imediatamente de sua fala e agradeci por ainda não ter sido tão contagiado: o vinho que eu tinha pela frente era tudo o que existe de diferente daquelas bombas, mas era a personificação da potência e da elegância máximas em um vinho. Tudo na medida mais que correta. Tudo presente convivendo na mais perfeita harmonia. E veio o terceira e veio a quarta taça. Sem que ao menos desse conta, estava com os quatro copos na minha frente, com todas as amostras se oferecendo a todos meus sentidos como um presente divino.

Poder sentir aromas e sabores daquelas quatro taças foi um melhores presentes que a vida me ofereceu, relativo a vinhos. A mim pouco importa o quanto de mito, o quanto de propaganda, o quanto de expectativa criada artificialmente havia naquele momento; o fato é que ele foi ímpar e sublime.
A interação com os companheiros de jornada foi total. O vinho, ali, era muito mais importante que todos nós. O prazer dos aromas e sabores muito maior que inevitáveis diferenças entre degustadores. Nossa única preocupação era compartilhar experiências sensoriais que foram as mais marcantes possíveis. As pessoas ali falavam muito mais com o brilho do olhar do que com palavras. Por mais que muitos ali estivessem acostumados a beber vinhos excepcionais, brilho no olhar era algo comum a todos os presentes.
Os quatro vinhos traziam experiências inesquecíveis e únicas. Confesso que não imaginava uma diferença tão grande como a que havia nas quatro taças. Os vinhos mais uma vez vinham provar que por mais que fossem feitos com castas e técnicas praticamente idênticas, cada um tinha a sua aparência e personalidades únicas. Aromas e sabores variavam mostrando como a diversidade pode ser encantadora quando se fala a vinhos e como a perfeição é múltipla. Chegamos a comentar que se pudéssemos fazer uma síntese dos quatro vinhos chegaríamos à perfeição. Talvez sim, talvez não. Para mim aquela diversidade na excelência era muito mais significativa.
Uma coisa é importante ressaltar: os aromas do Petrus 99 foram para mim o que mais próximo existe para perfeição em aromas de vinhos. Complexidade e finesse em harmonia total. O melhor do melhor!!
Perto do final veio o inevitável: alguns queriam saber a nota que o Professor Célio daria aos vinhos, bem como qual era a nota de Robert Parker para os vinhos. Não dá para fugir disto: saber a nota de Parker é o desejo de quase todos. O Professor Célio elegantemente se recusou a dar notas aos vinhos, disse que poderia dizer qual era o seu vinho preferido, mas que ele prefere não dar notas a vinhos.
Enquanto ele falava, eu curtia um pequeno dilema: eu havia estudado muito sobre os vinhos antes de ir para a degustação e tinha muitos dados sobre o Chateau e sobre os vinhos, inclusive notas. Sabia as notas de Parker, mas tinha certeza que elas iriam causar certa decepção entre os presentes. Um pouco da exaltação seria amainada pelas notas. Pensei alguns minutos e resolvi não falar. Eu não queria ver desapontamentos naquela noite. Deixaria que eles descobrissem no dia seguinte. Os vinhos tinham as seguintes notas de Parker (e no hiperlink as minhas):
Chateau Petrus 81 - RP 86/100
Chateau Petrus 87 - RP 87/100
Chateau Petrus 88 - RP 91/100
Chateau Petrus 99 - RP 94/100
Tirando a nota do vinho da safra 1999, as outras notas iriam causar uma decepção, tenho certeza. Para mim muito pouco elas importavam, importavam meus sentidos.
Após beber estes vinhos só confirmei o que eu desconfiei quando descobri estas notas: meu grande sonho quanto a vinhos passa a ser beber Petrus, ou equivalente, e poder dar uma nota 86 a um destes vinhos.
Dar 86 pontos a um vinho destes é o mesmo que dizer que existe uma infinidade de vinhos melhores, muito melhores que este.
Como eu tenho que acreditar que existe um critério e uma justificativa para esta nota, só posso ficar feliz, muito feliz; afinal o prazer que tenho pela frente é praticamente infinito e inesgotável. Minha única dúvida é sobre a nota que vou dar aos vinhos aos quais hoje eu dou 86, quando eu conseguir chegar a este ponto. Acho que minha escala vai começar em 30 ou 40 pontos!! E muitos vão ganhar 15 ou 20 pontos.
Muita gente vai me perguntar, como acontece frequentemente, se valeu a pena. Ou então se um vinho de quinze mil reais é 150 vezes melhor que um de 100 reais? Bem, vamos começar pela resposta mais fácil que é a referente à segunda pergunta: é claro que o preço de um vinho destes está muito mais relacionado à sua raridade, à sua fama do que a uma relação do quanto ele é melhor que outros vinhos. É impossível que um vinho seja 150 vezes melhor que outro de boa qualidade. Ele é melhor, muito melhor que muitos dos melhores vinhos que já tomei. Mas o quanto melhor é algo que não se mede e que não pode ser precisado (já diziam os navegantes gregos: Navegar é preciso, viver não é preciso!).
Quanto a ter valido a pena a resposta é um retumbante sim. Degustar estes vinhos foi muito mais que um sonho realizado. O prazer que desfrutei foi muito maior do que podia imaginar. Degustar estes vinhos significou abrir novos caminhos e novos sonhos. Renovar, substituir e inflar sonhos antigos. Significou confirmar que realizar sonhos é uma das melhores coisas da vida. Mas, continuar a sonhar e a buscar os sonhos....... é melhor ainda!!!
 |
| Nome: Lucas |
Comentário: Sonhei junto com você Chris!!! Parabéns pelo evento!!!
|
 |
| Nome: Bruna |
Comentário: Adorei!!!! :-)
|
 |
| Nome: Deolindo |
Comentário: Amanhâ não estarei aqui, mas meu sonho de degustar um Petrus permanecerá entre meus filhos.
|