Mais uma degustação conduzida por Gerson Lopes na Adega do Mercado. Desta vez Gerson discute e testa a evolução de um vinho em garrafas de diferentes volumes.
Muitos especialistas dizem que a garrafa de 1,5 litros, ou Magnum, representa o volume ideal para a evolução de um vinho. Segundo estes especialistas a meia garrafa é o recipiente no qual o vinho atinge o seu auge mais rápido (pode-se dizer também, que começa a decair mais rápido), a garrafa comum seria um valor médio e padrão, enquanto a garrafa Magnum propicia a melhor relação entre volume de oxigênio engarrafado e o volume do liquido presente. Por este motivo magnuns são objeto de desejo de colecionadores. Alem disso, em geral, uma garrafa Magnum custa mais (às vezes bem mais) do que duas garrafas comuns.
Alguns críticos, enólogos e especialistas, por outro lado, dizem que a evolução de um vinho dentro de uma garrafa é algo impossível de ser previsto com exatidão. Dizem que as diferenças existem, mas que são imprevisíveis e pouco significativas. Com algum tempo de taça já não existe qualquer diferença entre os dois vinhos. É importante ainda ressaltar, que para garrafas ainda maiores como as de tres, seis, nove doze e quinze litros se considera que não existe diferença significativa na evolução dos vinhos.
Aliás, um fato que chama a atenção no que diz respeito à evolução de um vinho na sua garrafa é a diferença que existe na previsão destes especialistas quanto ao seu período ideal de degustação. Um mesmo vinho, bebido em uma mesma época (muitas vezes no mesmo dia e no mesmo local) possuem previsões (ou palpites??) muito diferentes por parte dos especialistas quanto à data ideal para ser aberto e sobre quanto tempo permanecerá na sua plenitude. Estas diferenças chegam às vezes há 10 anos. Para mim, só este fato já coloca uma enorme duvida quanto à validade destas previsões (ou, insisto, palpites).
O fato é que esta degustação teve como objetivo discutir e testar estes pontos, sem a pretensão de ser definitiva uma vez que muitos fatores estão envolvidos sendo que a conservação das garrafas é fator preponderante e muitas vezes difícil de garantir uma igualdade.
Como em todos os seus eventos, Gerson teve o cuidado de fazer uma belíssima escolha para a degustação. Escolheu 4 grandes vinhos representantes de 4 dos mais tradicionais países produtores europeus e de 4 de suas principais regiões. Claro que a garrafa comum e a garrafa magnum eram da mesma safra. Outro cuidado que Gerson teve foi o de escolher safras diferentes de forma que pudéssemos testar a diferença em vinhos com diferentes idades, Os vinhos escolhidos foram (clique para ver a análise):
Mauro 2005 - Vino de La Tiera de Ribeira del Duero - Espanha
Chianti Clássico Riserva Cellole 2004 - Toscana - Itália
Quinta da Gaivosa 2000 - Douro - Portugal
Chateau Berlicquet 2001 - Bordeaux - França

Os vinhos foram servidos em duas taças numeradas sem que soubéssemos qual delas vinha de cada um dos tipos de garrafa. De acordo com a teoria o vinho da garrafa comum deveria estar mais "pronto" para beber, uma vez que sua evolução seria mais rápida do que na garrafa magnum. Doze pessoas participaram do evento e com cada vinho as impressões foram:
A - MAURO 2005- Neste vinho houve praticamente uma unanimidade. A primeira amostra se mostrou acentuadamente mais evoluído na cor, nos aromas e nos sabores. De acordo com a teoria esta primeira amostra deveria ser a da garrafa comum e isto foi confirmado ao se revelar a ordem das taças.
B - CHIANTI CELLOLE 2004 - As diferenças estavam menos pronunciadas. Entretanto a amostra que foi considerada pela maioria como mais "pronta" foi a da garrafa magnum e não, como esperávamos a da garrafa comum,
C - QUINTA DA GAIVOSA 2000 - Mais uma amostra de difícil avaliação quanto às diferenças. Depois de muita discussão não houve consenso sobre a amostra mais evoluída. Ao se revelar a ordem verificou-se que a amostra considerado por mais pessoas como sendo da garrafa comum, pertencia à magnum.
D - CHATEAU BERLIQUET 2001 - A mais difícil de todas quanto diferenças entre as amostras. A turma praticamente se dividiu e consequentemente o "acerto" (ou o "erro") foi de 50%

É importante citar que a maior parte dos presentes definiu como o melhor vinho da noite o QUINTA DA GAIVOSA.
O objetivo da degustação foi plenamente atingido, pois as discussões sobre evolução de vinhos em garrafas diferente e diferenças entre amostras de um mesmo vinho foram muito interessantes e instrutivas.
A conclusão, se é que se poderia chegar a alguma, foi que o vinho continua a ser algo que desafia os nossos sentidos e, principalmente, as regras e afirmativas definitivas. Algumas diferenças foram acentuadas e fáceis de perceber. Outras, difíceis e controversas. Muitas vezes não se notava diferença ou elas variavam com o tempo de taça.

De minha parte já havia feito esta experiência outras vezes, sendo que sempre com apenas um vinho e sem ser às cegas. Continuo apenas querendo fazer mais experiências, principalmente se os vinhos forem de qualidade como os desta noite.
Não cheguei a qualquer conclusão definitiva, mas não nego que possa haver uma diferença na evolução em diferentes garrafas. Acho, entretanto, que estas diferenças nem sempre serão muito significativas e, alem disso, outros fatores importantes irão influenciar o resultado.
Para terminar, não posso deixar de comentar que também discutimos algo que já perguntei a diversos enólogos: é verdade que as vinícolas escolhem os melhores tonéis para destinar para as garrafas magnum? Este é um fato que pode influenciar de forma definitiva e obvia à pergunta título de nossa dgustação. É obvio que nenhum enólogo ou produtor vai afirmar isto de forma oficial. Mas posso garantir que já recebi muito não......mas com um sorriso inteiramente matreiro no rosto.