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A Austrália e o vinho

07/12/2009::Marco Aurélio Roman

Normalmente, a primeira imagem que vem à mente ao se falar de Austrália é a de um Canguru saltando em uma paisagem semidesértica, ou o ícone do Sydney Opera House. Os apreciadores de vinho provavelmente vão lembrar-se dos Shiraz ali produzidos.





O que o vinho significa para os australianos?

Minha experiência na Austrália é muito curta para respostas definitivas, minhas opiniões são apenas um primeiro olhar. A bebida nacional australiana é a cerveja, assim como no Brasil. Nos pubs, bebe-se cerveja. Nestes locais sempre encontrei vinho, nem sempre em taça, e normalmente apenas as marcas mais conhecidas, como Jacob's Creek. Os preços são bons, mas pouca gente bebe vinho nos pubs. Não espere encontrar bons winebars em cada esquina, como encontramos facilmente na França e Itália. Os que encontrei até agora são lojas de luxo, com preços elevados para a taça.

E há ainda a legislação australiana de restrição ao consumo e venda de bebida alcoólica. Álcool só pode ser vendido em locais específicos, como pubs, hotéis e lojas especializadas. O dono precisa ter uma licença para a venda de álcool. A lei tem restrições ainda sobre propaganda de bebidas alcoólicas: não pode associar bebidas alcoólicas ao sexo, não pode mostrar pessoas alteradas pelo álcool, não pode mostrar pessoas bebendo depressa. Nos pubs os garçons podem - pela lei, devem - recusar venda de bebida a quem estiver intoxicado - estou traduzindo literalmente intoxicated. Dizem que a punição por dirigir embriagado é severa, mas o limite é de razoáveis 0,05%, como já foi no Brasil um dia. Há lugares, como a praia, em que é proibido beber. Ufa! Com uma legislação puritana assim você deve estar achando que o australiano não bebe nada. Engano. A verdade é que o australiano gosta bastante de bebida alcoólica, e bebe bastante. E onde comprar vinho? Nas lojas especializadas. E como os supermercados não podem vender bebida alcoólica eles têm uma loja especializada bem ao lado da entrada.

E onde beber? Minha viagem por aqui tem o vinho como coadjuvante - e que coadjuvante, ganha um Oscar fácil, fácil - não fui extensivo na pesquisa dos restaurantes. Em geral cartas simples e boas, com preços razoáveis. Mas um elemento interessante aparece em três letras que podem ser vistas em muitos restaurantes: BYO = bring your own = traga o seu. Você sai de casa com sua garrafa, bebe no restaurante e paga uma pequena taxa de rolha. Nos restaurantes em que fui, módicos dois dólares. Não espere belas taças de cristal, mas normalmente razoáveis taças de vidro. Estes restaurantes estão por toda parte. Mesmo quando não está escrito, não custa perguntar ao dono, a resposta normalmente é sim. Apenas especulando, acredito que isto pode estar relacionado ao fato de muitos restaurantes não terem licença para venda de álcool, mas se o cliente levar seu vinho, não há lei que o proíba de beber ali. Vou tentar verificar minha simplória teoria.



Como muitos devem saber, a Austrália foi pioneira na modernização da produção de vinho, utilizando prensagem mecanizada, tanques de aço inoxidável, controle de temperatura, vinificação utilizando a gravidade para movimentar uvas, mosto e vinho. Isto está refletido na qualidade do vinho. Na média, os vinhos australianos são de boa qualidade.

Não tendo ainda encontrado bares de vinhos, minha amostra está bastante limitada. Estou sozinho, portanto faço o sacrifício de beber uma garrafa por dia. Até aqui comprei vinhos na faixa de 15 a 40 dólares australianos, o que equivale aproximadamente a 25 a 70 reais. Comprei os vinhos com a ajuda do guia de vinhos australianos do James Halliday e dos vendedores nas lojas. As escolhas foram felizes: a maioria dos vinhos muito boa, com alguns excelentes.

Próximo a Sydney está o Hunter Valley, a primeira região produtora de vinhos na Austrália. Mas há muitas outras e estas regiões estão consolidando suas vocações. As uvas e vinhos mais encontradas por aqui são as brancas Chardonnay, Riesling, Semillon e Sauvignon Blanc e as tintas Shiraz, Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Noir. A maior parte dos vinhos é varietal, com exceção na gama mais barata, aproveitando a produção dos vinhedos e na gama mais cara, em cortes com inspiração bordalesa, do Rhône e alguns outros inusitados para mim, como Shiraz com Semillon.

A grande estrela é a Shiraz, a uva que colocou a Austrália no mapa do mundo do vinho. Há bons exemplares em diversas regiões com destaque para o Barossa Valley. O Hunter Valley é famoso por seus Semillons. Rieslings no Clare Valley. Ao procurar Sauvignon Blanc e Pinot Noir os vendedores já apontam para a Nova Zelândia, mas há também belos exemplares australianos.

No início busquei características mais européias nos vinhos, mas o caminho da Austrália não parece ser este. Enquanto de um bom Borgonha tinto esperamos muita delicadeza e equilíbrio, em um Pinot Noir australiano encontramos fruta mais intensa e menos delicadeza, mas ainda assim muito equilíbrio. Os bons Riesling que provei não têm o mineral tão marcante como os europeus. Comparando com Chile e Argentina, minha visão dos vinhos australianos é muito positiva. Dada sua extensão "terroirtorial", os produtores conseguem colocar no mercado uma ampla gama de varietais de muito boa qualidade. Embora a fruta em geral venha na frente da delicadeza, os vinhos normalmente são equilibrados e elegantes.

Bom, vou parar por aqui. Há um Pinot Noir me esperando. A pesquisa continua!

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