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A França enlouqueceu?

19/05/2009::Christovão de Oliveira Junior

Pela paixão que tenho pelos vinhos, sou um leitor compulsivo de assuntos ligados a ele. Livros, internet, revistas especializadas e colunas fazem parte do meu cotidiano. Como a França é um dos países de maior tradição na elaboração de vinhos de qualidade, grande parte do que leio vem de lá. Nos últimos anos, e especialmente nos últimos meses, acompanho com preocupação as ações que lá se desenvolvem para conter o consumo de bebidas alcoólicas e que vêm afetando drasticamente a venda de vinhos em todo o país. Mesmo com o repúdio de grande parte da sociedade e com a reação conjunta dos produtores e comerciantes, as ações são constantes e crescentes. A publicidade vem sendo restringida e o consumo proibido em diversos locais. A legislação francesa é uma das mais rigorosas da Europa no que concerne a álcool e direção. A proibição da venda de vinho em taças já obrigou um restaurante francês, como forma criativa de protesto, a oferecer a bebida aos seus clientes em mamadeiras.

Atualmente, duas medidas estão em estudo e brevemente poderão ser votadas: limitação da divulgação de qualquer bebida alcoólica pela internet e a proibição de eventos que ofereçam gratuitamente bebidas alcoólicas com finalidade promocional. Essa última significa o fim das feiras de vinhos, das degustações oferecidas por cadeias de restaurantes e, principalmente, a oferta e o consumo nas vinícolas.

Entretanto, o golpe mais forte foi aplicado em fevereiro passado, quando o caderno de ciência e medicina do Le Fígaro publicou um estudo com o titulo: "Câncer: uma única taça de álcool aumenta o risco". O trabalho afirma, de maneira categórica, que "beber uma única taça de vinho por dia aumenta o risco de câncer entre 9% e 168%, dependendo de outros fatores". Todos nós sabemos que estudos desse tipo aparecem o tempo todo, no mundo inteiro. Entretanto, a repercussão desse trabalho foi enorme na França e passou a ser um dos principais argumentos de diversos órgãos governamentais que trabalham pela drástica redução do consumo de álcool.

Todos esses fatos ocorrem em um país no qual o vinho é visto como um patrimônio cultural inestimável. O vinho e tudo o que gira em seu entorno são responsáveis por uma circulação de bilhões de euros e pelo trabalho de milhões de franceses.

Não me julgo capacitado a discutir trabalhos médicos, mas sou capaz de avaliar que pesquisas com os mais variados resultados aparecem (e desaparecem) a cada minuto no mundo de hoje. Sempre que vejo tais pesquisas fico pensando, por exemplo, em quantos ovos já deixei de comer, uma vez que mais que um ovo por semana era considerado caminho seguro para problemas cardíacos. Hoje, o ovo é chamado de superalimento por diversos estudos "científicos".

Pode ser que os efeitos da pesquisa francesa demorem a aparecer, ou até mesmo que desapareçam rapidamente, como já ocorreu com diversos outros. Mas cada vez que leio coisas do tipo fico pensando que, realmente, daqui a alguns anos o homem viverá perto de 200 anos; desde que seja no campo, sem cigarro, carro, álcool, carne vermelha, telefone celular, computador, doces e mais um milhão de coisas. Ele vai morar em uma casinha simples, fazer muito exercício, dormir muito e comer apenas legumes, frutas e vegetais, todos orgânicos ou biodinâmicos. Claro que só vai poder tomar sol antes das 10h da manhã. E viva a longa vida!

Não gostaria de ir para o outro extremo e propagar, como o compositor Lobão na música (com título em francês) Decadence avec elegance, que diz: "Prefiro viver 10 anos a mil, do que mil anos a 10". Como em quase tudo na vida, a sabedoria está no meio do caminho. Uma coisa, no entanto, não posso deixar de confessar: é cada vez com maior prazer que visto uma camiseta que tem, no peito, a inscrição: "Ter prazer é pecado? Vou para o inferno, obrigado!"
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