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Argentina Maio/2010 – Bodegas Noemia

15/10/2010::Christovão de Oliveira Junior

Bodegas Noemia

 

Uma Visita à Bodega Noemia prova que nem sempre o tamanho das instalações é proporcional à qualidade e à fama dos vinhos. A Bodega está localizada no Valle Azul em uma pequena edificação solitária em uma imensa propriedade. Dificilmente encontraremos uma propriedade tão modesta, quanto ao porte das instalações, no Vale dos Vinhedos, por exemplo. O local foi adquirido pela condessa italiana Noemi Cinzano em conjunto com seu marido e enólogo Hans Vinding-Diers. Além deles a Bodega conta com a gerência do também enólogo Oscar Ferrari.

Oscar foi o responsável por nossa visita. Antes das oito horas da manhã saímos do Valle Perdido para uma pequena viagem até duas propriedades da Noemia. Durante o trajeto Oscar teve oportunidade de nos contar não apenas sobre a vinícola, mas também muito sobre a história do vinho na Patagônia. Além de toda a atenção que Oscar nos dispensou, ficou fácil tanto anotar quanto guardar algumas coisas que conversamos, pois o papo foi longo até o início da maratona vínica que foi cada um dos dias na região.

Vamos então a um pouco do que ele nos contou: Hans veio à Patagônia pela primeira vez em 1998 como supervisor de uma empresa inglesa que comprava vinhos da Humberto Canale. Hans ficou amigo de um enólogo da Humberto Canale e aos poucos começou a se interessar pela região que foi a cada dia mais lhe encantando. Logo ele passou a acreditar que encontrara ali um potencial muito grande para a elaboração de grandes vinhos e que ainda tinha muito que ser explorado. A confirmação disto veio quando ele começou a descobrir e a beber alguns vinhos de 50 ou 60 anos da área. Ele resolveu então fazer o seu próprio vinho e em 2001 comprou uvas de vinhedos antigos e elaborou as primeiras 1000 garrafas de NOEMIA. Apesar de ter sido uma vinificação precária em um galpão improvisado ele levou para a Europa diversas garrafas que quando mostradas a conhecidos provocavam um grande entusiasmo. A reação das pessoas fez com que Hans voltasse e adquirisse um vinhedo muito antigo que estava quase abandonado. Além disso comprou outra propriedade em uma zona distinta e fora da área tradicional de cultivo.

A região onde se encontra a vinícola, Rio Negro, já teve cerca de 18.000 hectares de vinhedos e mais de 180 vinícolas. Tanto os vinhedos como as vinícolas foram desaparecendo dando lugar a áreas e empresas que cultivam outro tipo de frutas e que eram muito mais rentáveis para seus proprietários. Rio Negro foi colonizado por italianos e por espanhóis que trouxeram plantas que Hans acredita que eram pré-filoxéricas. A partir de 1970 a região volta-se quase toda para a produção de maçãs e de suco de maçãs. A região que já teve cerca de 18000 hectares de vinhedos hoje tem aproximadamente 2.500 hectares.

As duas áreas vitícolas da Patagônia têm uma significativa diferença entre elas. Enquanto Rio Negro se destaca por possuir pequenos produtores, Neuquén possui grandes empreendimentos (alguns chegam a ser gigantescos) que se estabeleceram com incentivos governamentais.

Os vinhos para a elaboração do NOEMIA provem de um vinhedo velho de cerca de 1,5 hectares que não tem qualquer possibilidade de ser expandido. Isto significa que a produção deste vinho não irá crescer independente da continuidade ou do crescimento de seu prestígio. Desta forma teremos que continuar disputando as cerca de três mil a três mil e quinhentas garrafas por ano.

Um dado interessante é que o vinho J ALBERTO possui cerca de 5% de uvas Merlot que estão misturadas nos vinhedos de Malbec. Como a Merlot tem uma maturação mais cedo que a Malbec e a vinícola não faz distinção entre época de colheita, estes 5% de Merlot são colhidos supermaturados e contribuem para um afinamento do vinho de maneira especial.

O vinho A LISA é todo originado de um vinhedo muito mais novo que o do NOEMIA. Segundo Oscar, Hans acredita que o futuro da vinícola estará neste vinhedo que tem um grande potencial a ser desenvolvido com o envelhecimento das videiras.

A propriedade ainda compra uva de três produtores com os quais tem um contrato de dez anos.

Como curiosidade, em pesquisa na Argentina, os três vinhos da NOEMIA tem os seguintes preços nas lojas de vinho (primeiro semestre de 2010): A LISA 130 pesos, J ALBERTO 240 pesos e NOEMIA 500 pesos (quando se encontra).

Outro fato interessante é que no vinhedo velho da propriedade existem pequenas parcelas com Cabernet Sauvignon e com Merlot. Hans resolveu vinificar estas uvas e elaborou 1200 garrafas de um vinho com o sugestivo nome de DUE. Além das parcelas serem pequenas ainda existe um problema para esta vinificação: não são todos os anos que o Cabernet pode ser vinificado. A casta tem um longo ciclo de maturação e a região, por seu lado, tem um curto período para a maturação. As geadas podem chegar muito cedo. Então a elaboração deste vinho é algo que além de incerto chega até a ser improvável.

Aliás, é importante dizer que o clima da região apresenta diversas dificuldades e que mesmo a Malbec pode sofrer influências negativas. Por exemplo, em 2005 a vinícola não conseguiu uma uva de qualidade para produzir o NOEMIA que, por via de consequência, não possui esta safra.

Alguns detalhes da elaboração do NOEMIA:

  • A colheita é sempre feita pela manhã, bem cedo, e as uvas são transportadas em caminhões frigoríficos;
  • Todo o desengace é feito manualmente;
  • A fermentação é feita em tanques abertos de cimento revestidos de epóxi;
  • Durante a fermentação tem–se um grande número de pigeages;
  • A maceração dura de 15 a 18 dias;
  • O vinho é exportado para 22 países sendo que os maiores compradores são EUA, Dinamarca, Brasil e Argentina nesta ordem;
  • 90% da produção é exportada;
  • Nos vinhedos da Noemia não são utilizados Álamos uma vez que, mesmo com menor produção, Hans pretende que a vinha se adapte e reflita as condições locais;
  • Toda a produção da NOEMIA é biodinâmica e eles estão certificados;
  • Tanto o NOEMIA quanto o J ALBERTO são de vinhedos velhos de 1932. O vinhedo do primeiro tem 1,5 hectares e o do segundo 5,5 hectares. Eles estão localizados em Mainkue – Rio Negro;
  • Nenhum vinho da bodega é filtrado.
  • Sobre Hans Vinding-Diers aqui vão algumas curiosidades:

  • Hans não tem formação acadêmica em enologia;
  • Seu pai era enólogo em Bordeaux e aos dez anos Hans já participava de degustações às cegas que seu pai promovia para avaliação de vinhos que ele elaborava e de outros produtores que ele comprava;
  • Em geral Hans fica de novembro a maio na Patagônia;
  • Hans elabora os vinhos da vizinha Bodega Chacra que foi comprada por indicação dele;
  • Agora um fato que eu não sei se o pessoal da NOEMIA vai gostar de ver divulgado: no final de toda colheita é realizada uma partida de futebol entre o pessoal da NOEMIA contra a equipe da BODEGA CHACRA. O resultado normal desta partida é a vitória do time da CHACRA;
  • Segundo Oscar o principal diferencial entre os Malbecs da Patagônia e os de Mendoza é que enquanto o do norte tem um floral mais acentuado, o do sul é mais terroso e mais especiado, além de toques de grafite.
  • No início da tarde tivemos oportunidade de curtir um almoço informal, mas de grande qualidade. Além de Oscar Ferrari estava presente a enóloga portuguesa Teresa Gaspar que merece um comentário a parte. Tereza cursou enologia em Portugal, mas resolveu correr o mundo para aprender diferentes técnicas e visões. Ela é uma pessoa que demonstra grande paixão pelo vinho e um grande interesse em conhecer sobre ele, sua história e diferentes técnicas. Em nossa conversa ela demonstrou um absoluto desprendimento em relação a visões dualistas (tipo Novo ou Velho Mundo, Bordeaux ou Borgonha, Elegância ou Potência, etc) revelando uma postura muito mais preocupada com o que funciona e o que não funciona quando se trata de um vinho representar um país e um terroir. Segundo ela seu estágio na NOEMIA tem sido de grande aprendizado pela forma que ela trabalha sob a supervisão de Hanss. Mostrou grande interesse em trabalhar em uma vinícola no Brasil, o que representaria um ganho muito grande para uma possível empresa que a contratasse pelo seu grande conhecimento, interesse e capacidade de trabalho. Conversar com Teresa e Oscar toda uma manhã foi um evento dos mais instrutivos de que já participei.

    No nosso almoço os vinhos que degustamos foram (clique neles para ver a avaliação):

  • A LISA 2000
  • J ALBERTO 2009
  • NOEMIA 2008
  • DUE 2007
  • Visitar a NOEMIA e poder conversar com duas pessoas como Oscar e Teresa foi não apenas um grande prazer, mas também uma oportunidade única de aprender bastante sobre a bodega, seus vinhos, a Patagônia, um pouco mais da Argentina e muito mais sobre a paixão em fazer vinhos. Paixão esta que só pode ter como resultado vinhos especiais como os que são ali elaborados.

     

     

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