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Os vinhos da Ilha de Santorini - Parte 1

14/01/2017::Daniel Chaves

A viagem à Grécia em Outubro de 2016 foi repleta de boas surpresas. No período em que estive lá com minha esposa fiz uma completa imersão nos vinhos locais para melhor compreender os estilos, as regiões e as castas autóctones gregas. Apesar de já conhecer alguns bons vinhos e já ter saído do Brasil com outras boas indicações, as dicas locais foram também muito valiosas. Através delas descobri desde bons espumantes como o Karanika Cuvée Speciale (um belo Blanc de Noirs 100% Xinomavro) até os Moscatéis doces da ilha de Samos (um dos segredos mais bem guardados da Grécia), passando por vinhos absolutamente surpreendentes como um varietal Liatiko da Ilha de Creta, que mais lembrava um Borgonha de alta estirpe (falei um pouco deles no meu instagram @danivinho).

Apesar de territorialmente pequena a Grécia tem muito a se conhecer, e o deslocamento entre as ilhas toma um certo tempo da viagem. Como não somos adeptos do “maraturismo”, preferimos reservar um dia inteiro na Ilha de Santorini, onde passamos 04 noites, para visitar as vinícolas com calma. A escolha pelas vinícolas de Santorini também foi motivada pelas minhas experiências anteriores com os vinhos de lá: pelo menos três dos maiores produtores da ilha exportam para o Brasil e seus vinhos sempre me agradaram. A Assyrtiko, em especial, dá origem a vinhos que aprecio muito, cítricos e minerais, ricos mas com uma acidez viva e cativante, o que sempre me levou a indagar porque esta casta não é mais difundida mundo afora. A única resposta que me pareceu razoável até agora é que é a combinação da casta e do solo vulcânico de Santorini é que faz os Assyrtikos de lá tão especiais.  

Apesar de alguma instabilidade climática ser algo comum no mês de Outubro, o tempo esteve fantástico em toda a viagem. No dia 11, entretanto, Santorini amanheceu um pouco nublada e com temperatura mais amena o que, para a nossa programação, acabou sendo ótimo. Tomamos um café da manhã caprichado aproveitando a linda vista da Caldera em Imerovigli e rumamos para o outro lado da ilha para conhecer a Gaia Wines (um percurso de aproximadamente 30 minutos de carro).

 

       

A Gaia Wines foi fundada em 1994 por dois agrônomos gregos, um deles com PhD em enologia pela Universidade de Bordeaux, e hoje conta com duas instalações. A maior, com capacidade de 3.000hl fica na região de Nemea, no Peloponeso, enquanto a que visitamos, com pouco menos da metade da capacidade daquela, fica junto a uma praia de pedrinhas negras na costa leste de Santorini. A filosofia da vinícola reside em utilizar as práticas mais modernas para extrair todo o potencial das castas autóctones da Grécia.

O visual da vinícola combina com Santorini, é descontraído, até praiano, convida ao relaxamento. Como era fim de temporada tivemos uma atenção exclusiva em nossa visita e pudemos fazer uma degustação de alguns vinhos do portfólio, apresentados com muito detalhamento. Só posso dizer que degustar os vinhos na beira do mar Egeu não foi nada mal.

       

A degustação começou com o Thalassitis 2015, um belo vinho que demonstra bem a tipicidade da Assyrtiko de Santorini, com muita pureza e expressão. O palato é seco, com muita vivacidade, acidez alta e mineralidade acentuada. Um vinho de personalidade e que harmoniza perfeitamente com os frutos do mar da ilha. Depois passamos para o Thalassitis Oak Fermented do mesmo ano, que fermenta e estagia em barricas de carvalho novo por 5 a 6 meses sobre as lias. Aqui temos um vinho de textura mais cremosa mas também com uma bela acidez – as notas de tosta da barrica e o caráter mais macio não comprometem a expressão da casta e sua mineralidade salina, apenas somam complexidade.

       

O terceiro vinho foi o S 2014, um corte de Syrah e Agiorgitiko da região de Nemea, uma concessão da vinícola à uma casta internacional. O nome faz referência à Syrah e também uma alusão à combinação de castas autóctones e internacionais que ficou famosa na Itália com os chamados supertoscanos (este S seria então um “Super Nemea”). Um vinho de estilo moderno, muito bem feito mas ainda jovem – deve ganhar com uns 2 anos de guarda. Tem uma bela estrutura tânica, boa acidez e concentração de fruta em integração com as notas do estágio de 12 meses em carvalho francês de Nevers e Allier.

       

Depois deste seguimos para o topo de gama, Gaia Estate 2013, um 100% Agiorgitiko que sempre figura entre os melhores tintos gregos nas avaliações da crítica. Um vinho um pouco contido neste estágio mas que apresenta um nítido potencial de evolução.  Apesar de jovem foi exibindo uma boa complexidade aromática no pouco tempo em que ficou na taça, boa densidade no palato e taninos altos suportando uma fruta madura e suculenta.

Por fim encerramos a degustação com um delicioso Vinsanto 2005. O Vinsanto é um típico e histórico vinho de sobremesa de Santorini. Apesar do nome e processo semelhante, não deve ser confundido com o Vin Santo del Chianti, pois aqui o “Santo” vem de Santorini. O Vinsanto é elaborado principalmente com a Assyrtiko (com pequenas quantidades de Athiri e Aidani), colhidas maduras e submetidas a um posterior processo de secagem. A Gaia divide as uvas em duas porções, uma delas é seca sob o forte sol de Santorini enquanto a outra é mantida à sombra para preservar um certo frescor da fruta. O resultado é um vinho de cor âmbar muito escura, denso e viscoso, com ótima intensidade de sabores e uma acidez salivante que dá equilíbrio ao alto teor de açúcar residual. Um néctar para se degustar em pequenos goles como vinho de meditação.

          

Depois da degustação ainda fomos visitar as instalações da vinícola, onde pudemos verificar as novas experiências que estão sendo feitas, como a vinificação da Assyrtiko em ânforas de barro seguindo uma tendência que está em voga atualmente. Apesar do pequeno porte, nota-se o capricho e cuidado na vinificação, Enfim, foi uma visita muito agradável e recomendável para os enófilos que visitarem a apaixonante ilha de Santorini. Depois de lá partimos para conhecer a Vassaltis, uma jovem vinícola de belas instalações e que em pouco tempo de vida já está apresentando excelentes resultados. Mas isso fico para a parte II.

  

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