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Os vinhos da Ilha de Santorini - Parte III

24/06/2017::Daniel Chaves

Seguimos rumo ao norte da ilha após a visita à Vassaltis e chegamos pontualmente na Domaine Sigalas. Eu já conhecia alguns dos vinhos deste produtor, que chegam ao Brasil através da Importadora Decanter - seus ótimos Assyrtikos foram motivo suficiente para inclui-la nos nossos planos em Santorini.

A Sigalas foi fundada em 1991 e sete anos depois passou a ter instalações próprias em Oia, no norte da ilha. Com seguidos investimentos em tecnologia e expansão, hoje produz mais de 200.000 garrafas ao ano e cultiva uvas autóctones em aproximadamente 20 hectares do solo vulcânico de Santorini. Seus vinhos ganham constante destaque na crítica especializada, sendo considerada uma das maiores referências de qualidade em vinhos da ilha (senão a maior), e são elaborados com base em três princípios: relação creativa com a tradição de Santorini, know-how e qualidade. 

O clima da ilha possui algumas particularidades devido à influência marítima. Além dos fortes ventos, a umidade que vem da caldeira submersa do vulcão costuma cair sobre o solo e as videiras durante as noites do escaldante verão da ilha (este sereno é chamado pelos locais de "pousi"), ajudando a diminuir o efeito do calor do dia e a criar uma amplitude térmica muito benéfica para a maturação ideal das uvas. O solo vulcânico tem características muito específicas que tornaram a ilha imune à praga da Phylloxera.

São utilizados tanto os métodos de condução mais usuais como os locais giristi/kouloura e koulouri/klada. Acima vê-se um exemplo de kouloura, em que as videiras assumem um formato de cesta rente ao solo de forma que as uvas ficam protegidas dos fortes ventos marinhos e do sol escaldante. 

Como já eram 16h e tínhamos comido apenas alguns queijos na Vassaltis, aproveitamos para pedir uma entrada e o prato do dia e testar a harmonização com os vinhos da degustação.

A degustação começou com um varietal Aidani que às cegas eu provavelmente diria ser um Gewürztraminer.  Vinho bastante perfumado, macio e com uma acidez mais moderada para os padrões dos brancos de Santorini. Em seguida um corte de Assyrtiko e Athiri, um pouco menos expressivo e estruturado que os 100% Assyrtikos da vinícola mas muito fácil de beber. Nele já se nota a mineralidade e acidez características desta casta, que predomina no blend.

A sequência de varietais Assyrtikos começou com dois bons conhecidos - os Santorini em suas versões sem e com estágio em barrica. Ambos excelentes, cada um em seu estilo. O primeiro é uma excelente expressão da casta, com textura macia e fruta rica contraposta pela acidez e salinidade típicas. O segundo mostra com nitidez as notas da fermentação e o estágio em barricas de carvalho francês, mas que não se sobrepõem ao caráter varietal (nesta safra buscou-se reduzir um pouco a madeira em relação aos anos anteriores). Ambos tem bom potencial de guarda. 

Passamos então ao excelente Kavalieros, um Assyrtiko single vineyard que já havia me encantado em safras anteriores. É provavelmente o melhor exemplar da casta que já provei: um vinho estruturado e cremoso, cheio de camadas, com uma acidez vibrante. Tem tudo para evoluir muito bem. O Nychteri, por sua vez, é um Assyrtiko elaborado de forma tradicional, com uvas colhidas um pouco mais tarde e longo estágio sobre as lias em barris velhos de carvalho. Encorpado e untuoso, tem um perfil distinto, bem denso e com um toque levemente oxidativo. Um vinho sério.

O único tinto seco da prova foi um corte de Mavrotragano e Mandilaria, com certa rusticidade mas mais equilibrado que outros tintos da ilha que pude provar. Tem uma acidez refrescante, taninos firmes, e também uma boa concentração de fruta que se mostra em meio a notas de especiarias. 

Hora dos vinhos doces, que foram harmonizados com trufas de chocolate. O Apiliotis é um tinto de sobremesa 100% Mandilaria, elaborado com uvas secas ao sol por 10 a 12 dias. Muita geleia de frutas vermelhas e negras no palato, dulçor ligeiramente pronunciado e um final ligeiramente tânico - combina bem com chocolate amargo. 

O encerramento ficou por conta de um Vin Santo 2004, aromático e simplesmente delicioso. Eu sempre acho que estes vinhos são subestimados e para mim mereceriam mais destaque mundial dentre os vinhos de sobremesa. A acidez da Assyrtiko desempenha brilhantemente o seu papel, equilibrado o dulçor e a textura densa e viscosa. É um vinho de meditação longo, cheio de sabor...puro hedonismo. 

Todos os vinhos mostraram bem o compromisso do produtor com a alta qualidade. Mais do que isso, parecem trazer um pouquinho do charme de Santorini em cada garrafa, da brisa do mar, das paisagens paradisíacas e do jeito local de apreciar a vida. 

Terminada a degustação saímos ainda em tempo de pegar o entardecer na lindíssima Oia e sua vista inesquecível para a Caldera. Uma despedida em alto estilo desta linda ilha. O dia seguinte era de arrumar as malas e pegar a balsa para Milos, que nos reservava mais momentos fantásticos.

 

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