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Tawny ou Ruby?

30/07/2012::Rodrigo Vieira e Eloiza Ferreira

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Entramos em Portugal vindos da Galícia, cruzamos o Rio Minho e o seguimos na direção do mar. Eram 13h quando chegamos a Caminha, já na foz. A fome começava a dar sinal quando passamos pelo Restaurante Foz do Minho, que tinha uma bela vista para o rio. Éramos os únicos além dos garçons. Estranho, uma hora da tarde e o restaurante às moscas. Perguntamos ao garçom e ele disse que o movimento começava a partir de meio dia mesmo! Então descobrimos que havia fuso horário entre Portugal e Espanha, mesmo sendo no mesmo meridiano da Galicia. Ganhamos uma hora!

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O almoço estava maravilhoso. Bolinhos de bacalhau fritos na hora e camarões cozidos de entrada, seguidos do Bacalhau a Foz do Minho, delicioso! Acompanhamos com o vinho verde Poema Alvarinho 2007 com estágio prolongado sobre lias, ótimo!

Passamos por Viana do Castelo, com visita ao miradouro de Santa Luzia e sua lindíssima basílica, depois por Braga e chegamos na Cidade do Porto no fim da tarde, quando poderíamos entrar com o carro até a frente do hotel no Cais da Ribeira. O trânsito no cais tem horários restritos.

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Porto e Gaia sempre nos encantaram. A Ribeira, as pontes, as ruelas íngremes e estreitas, o Mercado do Bolhão, o Palácio da Bolsa, a estação de São Bento com seus azulejos, os armazéns de Vinho do Porto e o caudaloso Rio Douro. Só passear a pé por esses lugares já é um grande prazer.

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Jantamos em Gaia. Chegando ao hotel resolvemos passar pelo bar e verificar a oferta de Portos envelhecidos. Apesar de toda a importância dos Portos Vintage, temos preferência pelos Tawnys com indicação de idade e pelos Colheitas mais velhos, talvez por ainda não termos provado Vintages com longo tempo de garrafa. O fato dos Tawnys e Colheitas resistirem mais tempo depois de abertos possibilita a venda em taças, facilitando nosso trabalho de exploração destes néctares maravilhosos.

Pedimos um "tawny velhinho" ao barman, seus olhos brilharam. Quando perguntamos se tinha algum de quarenta anos ele viu que era sério. Começamos a conversar e ele nos convenceu a experimentar primeiro o Niepoort 20 anos, que já considerava excelente. Se animássemos ele serviria o de 40 anos. Não deu outra, animamos! Ele serviu um Noval 40 anos. Que vinho maravilhoso! Mais uma vez confirmamos que a sequência certa de serviço valoriza muito a impressão que temos do vinho. Tendemos a achar que no caminho dos básicos aos tops os vinhos vão se tornando mais intensos, opulentos e encorpados, mas não é a primeira vez que nos surpreendemos com um top mais elegante e de menos corpo, porém harmônico, com instigante complexidade e persistência interminável. Depois de todo interesse que demonstramos, nada mais justo que ganhar uma taça de Burmester Colheita 1963 para comparar com o Noval. O Colheita era mais delicado, mas com muita presença, preferimos declarar empate!

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Depois de mais um dia no Porto curtindo suas maravilhas sem pressa ou compromisso, partimos Douro acima. Escolhemos uma rota mais lenta, porém com promessa de lindos visuais. Depois de milhares de curvas e paradas para apreciar a vista chegamos a Peso da Régua. Na procura por um restaurante acabamos optando pelo Restaurante do Museu do Douro. Ótima comida, ambiente agradável e vinho melhor ainda.

Alimentados e felizes pegamos novamente a estrada rumo ao nosso hotel, Quinta de Santo Antônio, propriedade do simpático Carlos Almeida. O trecho entre Régua e Pinhão é maravilhoso, a estrada sinuosa espremida entre a íngreme encosta xistosa e o Douro, pede uma foto a cada curva, a cada mudança de luz. Devido à barragem na altura de Régua, o rio é largo e de águas calmas, refletindo as encostas como um perfeito espelho.

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A Quinta de Santo Antônio fica cravada em uma encosta de frente para o Douro, entre Adorigo e Valença do Douro. A vista é de tirar o fôlego. A posição é estratégica para nossos deslocamentos. Terminamos o dia com um belíssimo jantar no DOC de Rui Paula, com direito menu degustação harmonizado com vinhos escolhidos por Sandra Tavares, enóloga da Quinta do Vale Dona Maria. Além de ser considerado o melhor restaurante da região, sua bela estrutura, com decks sobre o rio, o torna extremamente agradável.

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Pela manhã traçamos nosso roteiro do dia na mesa do pequeno almoço, com a ajuda do Carlos. Ele sugeriu um passeio de barco Douro acima a partir de Pinhão, para ver um lado mais selvagem da região. Na volta, almoço no LBV em Pinhão, visita à Quinta do Seixo – Sandeman e à Quinta do Panascal da família Fonseca e Guimarães. À noite jantar no Castas e Pratos em Régua. Todas as dicas foram maravilhosas.

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O terceiro dia era o mais esperado. Tínhamos uma visita com almoço na Quinta de Nápoles do Dirk van der Niepoort. Chegamos às 12h e já havia um grupo de pessoas a espera da visita. Fomos recebidos pela Gabriela Santos, que nos apresentou ao grupo. Eram todos austríacos, então nossa visita seria em inglês. Coincidentemente este grupo também programa suas viagens em torno do vinho e já faz isso há uns seis anos, rapidamente nos entrosamos.

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Iniciamos a visita pelo local de recepção e seleção das uvas, passando em seguida para a sala de fermentação. As instalações são super modernas, aproveitam a gravidade e têm grande capacidade de produção, tudo extremamente limpo e bem cuidado. Recebemos taças e fomos para a sala de barricas onde o Luiz Seabra, responsável por toda operação da Quinta, se juntou a nós. Luiz pegou uma pipeta e começou a nos servir amostras direto das barricas, explicando que se tratavam de vinhos que compunham o corte do Batuta, um dos TOPs da vinícola. Um deles aportava estrutura, outro complexidade aromática e assim foi. O interessante é que as barricas continham vinho de determinadas parcelas de um vinhedo muito antigo, com várias variedades plantadas aleatoriamente. Quando perguntamos que uva tinha ali e resposta foi: há predominância desta, alguma coisa daquela, mais um pouquinho de uma outra e assim por diante. Tanto que na ficha técnica do Batuta constam várias uvas e termina com “e outras”. Dá para imaginar que o trabalho do enólogo é de grande sensibilidade e demanda um profundo conhecimento dos vinhedos.

Provamos, também direto da barrica, um tinto varietal ruby claro, com aromas de bosque, cogumelos e frutas vermelhas. Bastante complexo. Luiz nos desafiou a descobrir a uva. Ninguém foi capaz de acertar. Era o Bastardo da linha Projectos. Um ótimo vinho, que agradou muito a todos.

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Alguns dos austríacos perguntaram sobre os Vinhos do Porto, querendo entender a classificação mais genérica que os dividia entre Ruby e Tawny. Luiz explicou que são considerados Ruby aqueles vinhos que tem um contato menor com a madeira e consequentemente com o ar, evoluindo mais lentamente, conservando uma cor ruby profunda e aromas frutados, já os Tawny por terem um contato maior com a madeira e com o ar, sofrem uma maior oxidação, assumem uma cor atijolada e aromas de frutos secos. Assim teríamos no grupo dos Ruby os Vintage, LBV, Reserva e Ruby, e no grupo dos Tawny os Tawny com indicação de idade (10, 20, 30 e 40 anos), Colheitas, Tawny Reserva e Tawny (existem outras classificações menos comuns). O pessoal pareceu ter entendido bem a explicação.

Hora do almoço! O objetivo era provarmos alguns vinhos em uma refeição completa. Foi servido caldo de abóbora, salada, frango assado, lombo de porco, arroz de forno, creme queimado, geléias e queijo da serra da estrela. Estava tudo delicioso. Era uma refeição simples, mas muito bem feita e nos deu grande prazer. O Luiz, sempre muito bem humorado, explicou que o creme queimado é uma invenção portuguesa e que o creme brûlée e a crema catalana eram simples cópias. Bom, não havia ali representantes da Espanha ou da França e os anfitriões eram portugueses, então concordamos sem protestos, porém com risos. Os vinhos servidos estavam espetaculares e acompanharam muito bem os pratos. Com esse clima informal de almoço, quando percebemos já estávamos na sobremesa e não tínhamos anotado nada sobre os vinhos e muito menos tirado fotos. Tomamos o Tiara (branco) e os tintos Vertente e Redoma. De sobremesa tomamos um Tawny 10 anos e um Vintage 2007 que harmonizamos com creme queimado e queijo da Serra da Estrela, respectivamente, um espetáculo!

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Estávamos nos Portos e surgiu novamente a pergunta sobre os tipos Tawny e Ruby. Mais uma vez o Luiz explicou. Isso já estava se tornando motivo de brincadeiras quando o Luiz levantou-se e pediu que esperássemos. Ele voltou com um decanter contendo um vinho de cor âmbar e nos desafiou: "Vamos ver se vocês entenderam! Este vinho que estou servindo é Tawny ou Ruby? A garrafa está lá fora!" Eu, precipitado como sempre, já fui dizendo que era Tawny antes mesmo de o provar. O resto da turma, bem mais cauteloso, provou, discutiu, conversou e continuou na dúvida. Com certeza era um vinho mais evoluído, típico dos Tawny. A cor era de Tawny! Vários ficaram em cima do muro e uns poucos se dividiram entre as duas opções. Eu mantive a minha. O Luiz trouxe a garrafa, um LBV 1975. Acertaram os que disseram Ruby! Ganhamos todos, por provar um vinho que normalmente é bebido jovem mas que evoluiu muito bem.

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De volta ao hotel, fomos visitar as instalações onde Carlos fazia seu vinho de mesa e guardava os Portos, que fez há muitos anos. Ele foi enólogo da Sandeman por mais de 20 anos. O vinho de mesa estava amadurecendo e ainda tinha algumas arestas a arredondar. No jantar tomamos um 2004 que estava maravilhoso. Um vinho elegante e austero. Perfeito com comida. Os vinhos do Porto estavam em grandes barris de carvalho, um já tinha uns 15 anos e outro com mais de 35 anos. Ambos excelentes. Um luxo, ter dois barris destes para consumo!

O Douro deixou saudades, já estamos loucos para voltar. É um lugar único, especial. Não é à toa que foi declarado patrimônio da humanidade. Os vinhos de mesa são excelentes e os Portos uma viagem a parte. O visual não deve ser descrito, mas sim apreciado “in loco”. Uma terra apaixonante de um povo hospitaleiro.

Próximo destino Lisboa, no caminho, palácio, leitão e o monte dourado do Alenquer, até lá.

 

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