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Um almoço memorável na Quinta Santa Eufêmia

02/08/2015::Daniel Chaves

(por Daniel Chaves)

Um equívoco sério para o enoturista é planejar sua viagem pensando apenas em vinícolas mais conhecidas e festejadas pelos críticos. Frequentemente, nas vinícolas mais familiares, menos conhecidas pelo público, é que vivemos as melhores experiências: uma visita realmente personalizada, uma recepção calorosa, ou a oportunidade de conversar com quem realmente está envolvido na produção do vinho e ouvir seu ponto de vista, suas paixões e angústias...enfim, é nestes momentos em que o enófilo tem a chance de sentir a verdadeira alma do vinho.  
Até o final de abril eu sequer tinha ouvido falar na Quinta Santa Eufêmia, até que em uma feira fui apresentado aos seus vinhos.

Eu e o Rodrigo, companheiro aqui do Belo Vinho, estávamos andando pelos stands e ainda decidindo por onde começar quando o Bernardo, com muito bom humor, nos perguntou se estávamos levando as taças para passear.
Provamos um branco com bom frescor e dois tintos muito bem feitos, como o Touriga Nacional 2011, com uma bela expressão da casta. Apesar de se dedicar principalmente à produção de Vinho do Porto e de ter incluído vinhos não fortificados em seu portfólio apenas recentemente, a Quinta já mostrou que terá um belo futuro também neste tipo de vinho.

 
Voltamos mais tarde para os vinhos do Porto e aí a coisa ficou realmente séria - belos colheitas e vintages, tawnys envelhecidos de extrema finesse, além de Portos Brancos complexos e ricos de 10, 20 e 30 anos, uma categoria rara e encantadora.
Comentei com o Bernardo que eu e minha esposa faríamos uma viagem ao Douro no início de junho e ele nos convidou a conhecer a quinta. A inclusão da Quinta Santa Eufêmia no nosso roteiro ficou ainda mais certa depois que o Christovão e Lucas, também companheiros do Belo Vinho, elogiaram a simpatia da Alzira, que os apresentou aos vinhos na Expovinis deste ano. Troquei um e-mail com o Bernardo confirmando minha visita e marcamos de almoçar por lá.

Saímos do nosso hotel, próximo à Peso da Régua, pela manhã, e chegamos em poucos minutos. A quinta fica do lado do Douro oposto à Régua (margem sul), em uma estrada que sobe em direção ao vilarejo de Parada do Bispo. A localização é privilegiada e a propriedade possui 45 hectares de vinhas em encostas com excelente exposição ao sol, dominadas pelas castas regionais do Douro, como as tintas touriga nacional, tinta roriz, tinta barroca e as brancas malvasia fina, moscatel galego, rabigato e gouveio.  

No horário marcado fomos recebidos pelo próprio Bernardo, que com calma e muita simpatia nos conduziu por um passeio pela propriedade, fundada em 1864. Foi uma verdadeira aula de história sobre a região e a produção de vinhos do Porto pelas várias gerações da família. A conversa fluiu descontraída enquanto passamos pela capela de Santa Eufêmia, pelo marco pombalino existente na propriedade (de número 27), pelo belíssimo miradouro de onde se tem uma linda vista para o Douro, os lagares, a sala de tonéis e demais instalações da vinícola. 

Bernardo contou vários casos bem humorados, como o de que o marco pombalino teria sido deslocado pelo patriarca da família para que a propriedade fosse toda incluída na região demarcada pelo Marquês de Pombal (os marcos representam a delimitação original da região do Douro vinhateiro). Também falou das dificuldades, regras e burocracia envolvida na produção do vinho do Porto, e de que como a ganância dos grandes armazéns acabaram levando a Quinta Santa Eufêmia a produzir rótulos próprios. É que a produção, antes destinada às grandes companhias de Vila Nova de Gaia, passou a ser vendida pela própria quinta em razão do baixo preço que estava sendo oferecido pelo vinho. Uma mudança de rumos que acabou sendo muito feliz.

A Quinta investe na qualidade e modernização mas mantém o compromisso com a tradição, firme em certos métodos ancestrais de vinificação e envelhecimento do vinho. Lagares de granito e a pisa ainda são utilizados, especialmente nos vinhos de maior qualidade.  É muito interessante ver nos dias de hoje um produtor que mantém este aspecto familiar, tradicional, buscando avançar mas sem perder o compromisso com o que sempre garantiu uma produção de qualidade para eles. Por falar em família, é ela que move a quinta - a quarta geração leva em frente o trabalho que o patriarca Bernardo Rodrigues de Carvalho começou em 1864. 

Logo era hora do almoço e o papo continuou descontraído com boas risadas e a presença da também simpaticíssima Alzira.
Sobre o almoço, só posso dizer que foi sensacional. Sob a sombra de uma árvore frondosa, com uma boa conversa, uma linda vista, uma comida portuguesa caseira autêntica cheia de sabor acompanhada dos excelentes vinhos da vinícola, não faltava mais nada. O dia estava lindo e a comida era daquele tipo que parece ter sido feito por sua avó portuguesa - se você tiver uma. :-) 
Terminamos a refeição com um doce delicioso acompanhado dos tawnys de 30 e 40 anos - néctares maravilhosamente complexos, verdadeiros vinhos de meditação.


Saímos de lá encantados com a hospitalidade e acolhida carinhosa que tivemos. Se antes já tínhamos gostado da excelente relação qualidade-preço dos vinhos, depois desta visita esta quinta ganhou um lugar especial em nosso coração. Que Santa Eufêmia continue abençando esta belíssima propriedade, suas uvas e todos que as transformam nestes verdadeiros néctares. 

 

 

 

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