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Uma experiência quase completa na Casa Marin

08/01/2014::Daniel Chaves

Quando estávamos planejando nossa visita a algumas vinícolas dos vales da Casablanca e San Antonio no Chile, em Janeiro de 2014, a Casa Marin foi uma inclusão óbvia. Desde que os conheci me tornei um grande fã dos vinhos da vinícola, com um frescor, vivacidade e elegância raros de se encontrar no Chile - mais do que isso, vinhos com identidade. Lembro-me de ter provado estes vinhos pela primeira vez exatamente em uma época em que me encontrava um pouco saturado pela homogeneidade dos vinhos chilenos que eu experimentava, e fiquei surpreso e satisfeito em perceber que alguns produtores estavam se movendo para mudar o cenário. A admiração cresceu ainda mais ao conhecer a história do pioneirismo de Maria Luz Marin (ou simplesmente Marilu, como é melhor conhecida).

O planejamento ficou fácil depois que descobrimos que a Casa Marin tinha uma casa de hóspedes chamada Villa Miramar, situada em meio aos vinhedos. Como pretendíamos visitar várias vinícolas no dia e tínhamos uma visita programada para conhecer a vinícola logo pela manhã, a parada na Villa Miramar se encaixava perfeitamente no roteiro.

Chegamos ao bucólico vilarejo de Lo Abarca em uma tarde preguiçosa de sábado sem encontrar uma única pessoa na rua. A vinícola estava aparentemente fechada e quando começamos a nos perguntar se algo estaria errado com a reserva apareceu Osvaldo Marin (irmão de Marilu), que nos recebeu gentilmente e nos acompanhou em seu carro, passando por uma pequena estrada de terra na propriedade, até a casa de hóspedes - situada literalmente em meio aos vinhedos de Sauvignon Blanc da Casa Marin. A casa, com dois quartos, uma agradável sala de estar com lareira e cozinha equipada, é um convite a se desconectar: não há outros hóspedes, TV e telefone (mas há wi-fi). Não é luxuosa mas oferece conforto, paz e tranquilidade perfeitos para quem quer relaxar e curtir um vinho com calma. Mas o destaque mesmo está no agradável terraço com uma linda vista para o poente e os vinhedos, e de onde até se pode avistar por um vale entre as montanhas o Oceano Pacífico  - que está logo ali, a apenas 4 km.

 

Havia a opção de solicitar um jantar na casa mas infelizmente não sabíamos que deveríamos tê-lo agendado com antecedência. E como, apesar da boa recomendação de um restaurante local, não tínhamos a menor intenção de sair dali durante a noite, o Sr. Osvaldo recomendou e se dispôs a pedir uma deliciosa pizza de coração de alcachofra de uma pizzaria local que ele mesmo trouxe, junto com frutas fresquinhas.

Escolhemos um Riesling da adega da casa para acompanha-la e curtir o por do sol sobre as montanhas costeiras de Lo Abarca.

No dia seguinte descemos até a sede onde tomamos um delicioso café da manhã com pão caseiro e seguimos para a visita à vinícola, novamente acompanhado do sempre gentil Osvaldo Marin.

Como disse acima, a Casa Marin se tornou o que é graças ao pioneirismo de Maria Luz Marin. Depois de se destacar no mercado financeiro e como exportadora de vinhos a granel para grandes compradores da Europa (especialmente inglaterra), em 1997 Marilu adquiriu uma propriedade em Lo Abarca, onde costumava passar férias com sua família. Dedicou-se então a fazer vinhos de alta qualidade, apostando em um manejo cuidadoso da vinha e em rendimentos baixos, tornando-se no ano de 2000 a primeira mulher fundadora e proprietária de uma vinícola no Chile. E o fez contrariando o senso comum e convencida do potencial da região, pois insistiu em uma região que todos julgavam inadequada para o cultivo de uvas, em razão do clima mais frio e da umidade proveniente do oceano. Enquanto as bodegas locais se concentravam em Leyda, Marilu foi além ao plantar uvas ainda mais próximas ao mar. O primeiro Sauvignon Blanc, lançado em 2003, foi um sucesso imediato. Em 2004 foi construído o belo prédio em estilo colonial que abriga hoje as áreas de vinificação e armazenamento, dentro do conceito de uma vinícola boutique, com os belos mosaicos de Patricia Marin (irmã de Marilu) dando um charme especial ao local.

Hoje a vinícola é um empreendimento familiar, com a participação dos irmãos, marido e dos filhos de Marilu, especialmente de Felipe Marín que, seguindo os passos da mãe, estudou enologia na Califórnia e Nova Zelândia.

A visita começou com Osvaldo Marin conversando com tranquilidade sobre as vantagens e dificuldades do cultivo em uma região tão extrema. A influência marítima e as temperaturas amenas se mostraram ideais para o cultivo de variedades de climas mais frios como Sauvignon Blanc, Riesling, Gewürztraminer, Sauvignon Gris, Pinot Noir e Syrah. Os ventos e a temperatura amena garantem um amadurecimento mais lento e, junto com o manejo do vinhedo e a baixa fertilidade do solo, leva a uma produtividade pequena e a uvas de grande qualidade, com acidez marcante e nítida expressão do terroir, em especial o caráter salino e mineral que Marin atribui tanto aos ventos litorâneos quanto ao solo, com características geológicas de um local que já foi coberto pelo oceano e que mostra altos níveis de calcário.  

A área plantada (pouco mais de 50 hectares) está dividida em 38 parcelas que compõem os 8 vinhedos da propriedade, sendo que em cada qual foram identificadas características próprias de composição do solo e exposição ao sol, e escolhidas as variedades mais adaptadas às respectivas condições. De fato, percorrendo os vinhedos percebe-se facilmente as encostas mais protegidas e vinhedos mais expostos aos frios ventos que vem do pacífico.
Osvaldo também abordou as dificuldades com as geadas, os pássaros e as vespas ("chaquetas amarillas"), que se tornaram uma grave praga no Chile. E reafirmou que apesar do trabalho árduo, o resultado tem sido muito compensador. Aliás, "Paixão Pura" é o slogan da Casa Marin e traduz bem o espírito com que Marilu e sua família conduzem a vinícola on intuito de fazer vinhos de qualidade e, sobretudo, identidade própria. 

A linha premium, que leva o nome Casa Marín, é formada por 7 vinhos (Riesling, Gewürztraminer, dois Sauvignon Blancs de vinhedos distintos, Sauvignon Gris, Syrah e Pinot Noir). Os tintos amadeurecem de 1 a 2 anos em barricas francesas e, entre os brancos, apenas o Sauvignon Gris estagia em madeira, de 4 a 6 meses.

Por fim, terminamos com a degustação dos belos vinhos da Casa Marin: 

Você pode deve estar se perguntando, mas porque uma experiência quase perfeita? Porque faltou o jantar na casa - e pelo alto nível de todo o resto algo me diz que teremos que voltar para conferir. 

 

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