• Artigos

  • Relatos

  • Dicas e
    curiosidades

  • Eventos

  • Dicas de
    viagem

Vinho de Engenheiro

14/09/2012::Rodrigo Vieira e Eloiza Ferreira

Acordamos com aquela sensação de domingo, véspera de dia de trabalho. As férias estão acabando. Temos mais três noites e então dormiremos em casa. Viajar é bom demais, mas voltar para casa também tem o seu lugar.

Deixamos o Douro para trás e partimos rumo ao Palácio de Buçaco localizado na Mata Nacional do Buçaco, no Concelho da Mealhada. No meio do caminho decidimos conhecer Aveiro e seus canais. Aveiro é conhecida como a Veneza de Portugal, mas é famosa também pelos Ovos Moles, que tem certificação IGP (Indicação Geográfica Protegida).

Clique para ampliar

Os canais e os coloridos barcos moliceiros dão um ar muito agradável à cidade. Andamos pela parte antiga, fomos ao mercado e procuramos um restaurante para almoçarmos. A cidade estava vazia e não tínhamos dica alguma, então optamos pelo que estava mais cheio de pessoas que pareciam ser cidadãos aveirenses. Acertamos em cheio!

Restaurante simples, mas de ótima comida. Arriscamos o famoso Arroz de Tamboril, um prato, ou melhor, uma panela, que além dos ítens que o nome indica estava repleta de enormes camarões. Acompanhamos com um alentejano tinto jovem, que deu conta do recado com sobra. Exageramos um pouco para quem ia jantar leitão, mas são os inevitáveis sacrifícios de viagens! Fazer o que? Procuramos a loja indicada pelo Eça de Queiroz, adquirimos uma caixinha de ovos moles e deixamos Aveiro.

Clique para ampliar

A Mata Nacional do Buçaco foi plantada pela Ordem dos Carmelitas Descalços no final do século XVII, é limitada por muros e possui espécies vegetais importadas de várias partes do mundo. O Palácio Real, que mais tarde se tornou hotel, começou a ser construído em 1888, no lugar do antigo convento carmelita. O lugar é delicioso. Estava um dia quente, mas ao entrar na mata a temperatura ficou super agradável. Os jardins do hotel são muito bonitos e bem cuidados, os painéis de azulejos belíssimos, foi um ótimo passeio. Não deu para provar o famoso vinho. Fica para a próxima.

Clique para ampliar

Rumamos para Mealhada, que deveria se chamar Mealhada dos Leitões devido à enorme quantidade de restaurantes dedicados ao jovem suíno. Tínhamos reservado do Brasil um hotel estrategicamente posicionado ao lado do Pedro dos Leitões, o mais famoso restaurante a servir esta iguaria, mas durante nossa viajem comentamos com alguns portugueses que iríamos a Mealhada comer leitão e por três vezes nos disseram: vá ao Meta dos Leitões, é melhor que o Pedro! Como já tínhamos ido ao Pedro em outra viagem decidimos conhecer o Meta.

Mais aconchegante, com decoração clássica, toalhas vermelhas e garçons de mau humor, mas isso não é difícil de achar, não é mesmo? A comida estava perfeita. O leitão super macio, suculento e soltando dos ossos, com uma deliciosa casquinha crocante. O tempero suave valorizava o verdadeiro sabor da carne. Pouquíssima gordura. Acompanhamos com salada verde, tomates e batatas portuguesas conforme a tradição. Para beber pedimos espumante da casa, um bruto de baga, Casa de Sarmento. Combinação clássica, espumante bruto com leitão delicado. Foi um jantar delicioso! A Casa de Sarmento, além de operar seus restaurantes, produz vinhos, azeites, mel, charcutaria e leitões! Só coisa boa!

Clique para ampliar

Acordamos cedo e partimos para a visita à Quinta do Monte d'Oiro, duzentos e poucos quilômetros ao Sul de Mealhada. Passaríamos antes em Alcobaça, para visitar Pedro e Inês, os túmulos, já que agora Inês é morta e Pedro também. O desvio nos custou preciosos minutos. O tempo estava no limite.

De volta à estrada, o GPS acusava a chegada às 11:01h e nossa visita estava marcada para as 11h. De repente, um guarda manda entrar no posto de serviços. Era uma BLITZ! Até nisso são mais desenvolvidos, não se vê nada da estrada, não tumultua o trânsito e não causa transtorno a ninguém, a menos que esteja irregular. No posto, polícia federal, polícia rodoviária, alfândega e sabe-se lá o que mais. Uma super estrutura! A autoridade pediu os documentos. Apresentei os meus e o contrato de locação do carro, alugado em Barcelona. Só aí me lembrei que nunca me deram documentos ao alugar um carro. Desta vez foi um problema! Passamos por todas as autoridades, cada hora chegava mais uma. Não havia o que fazer, tínhamos um carro com placa espanhola, de locadora e sem documentos. Confiaram nos brasileiros e nos liberaram. Ufa, estávamos de volta à estrada, mas agora realmente atrasados.

Clique para ampliar

Chegamos à Quinta do Monte d'Oiro às 11:10h e a enóloga Graça Gonçalves estava a nossa espera. Fomos ver os vinhedos. De uma parte mais alta Graça nos mostrou como distribuíram as parcelas e as castas. A área plantada é de 15,5 ha, sendo composta de Syrah, Viognier e Petit Verdot trazidos da França, além das locais Tinta Roriz e Touriga Nacional. São produzidos sete rótulos. O manejo no vinhedo busca intervir o mínimo possível, aplicando conceitos de agricultura biológica. Os rendimentos são baixíssimos e as uvas de excelente qualidade.

Graça toca a produção de vinho praticamente sozinha, com auxílio de apenas uma pessoa. Na época da colheita tem ajuda extra. A estrutura é bem enxuta e organizada. Eventualmente ela conta com a consultoria de Gregory Viennois, enólogo-chefe da Maison M. Chapoutier e com o proprietário José Bento dos Santos, que dá a palavra final.

José Bento tem formação em engenharia química industrial, mas atua principalmente na área da metalurgia. Mas para nossa alegria ele tem grande entusiasmo pela gastronomia e enologia. Isso o levou a viabilizar o grande projeto de sua vida, a Quinta do Monte d'Oiro. Ele também participa de várias academias, confrarias e conselhos ligados ao vinho e à gastronomia, é autor de três livros, diversos artigos e duas séries de TV. O principal é que ele é autor de vinhos espetaculares, reconhecidos mundialmente e que nos dão imenso prazer.

Graça nos mostrou as instalações e até a cozinha de José Bento, cópia da cozinha do restaurante de um grande chef francês, Paul Bocuse se não me engano. Então partimos para a parte mais esperada, a degustação.

Clique para ampliar

A sala de degustação fica junto à de barricas, um ambiente agradável e de muito bom gosto. Graça separou três vinhos:

Madrigal 2007 – Um Viognier encantador que lembra um bom Condrieu. O nariz elegante e complexo é um mix de frutas brancas, flores, mel e minerais. Na boca é encorpado sem perder a elegância. Fruta, mineral e acidez estão em perfeito equilíbrio e permanecem por longo tempo.

Lybra 2006 – Este é o Syrah de entrada da vinícola e nele já se percebe a alta qualidade dos vinhos de José Bento. O Lybra traz fruta de alta qualidade com toques de chocolate e pimenta. Bem balanceado na boca é fácil de beber e de gostar. Passa 10 meses em barricas de carvalho francês. Bom corpo e longo final. Ótimo vinho.

Reserva 2006 – Syrah feito ao estilo da Côte Rôtie, com participação da Viognier em 6% da composição. O estágio de 18 meses em carvalho francês, junto com sua bela estrutura formam um conjunto elegante, complexo e de muita presença. O nariz riquíssimo apresenta especiarias e delicados tostados acompanhados de um toque de fruta madura. Um vinho que nos leva a grandes viagens. Espetacular!!!

Clique para ampliar

Aproveitamos um pouco mais do delicioso ambiente da Quinta e nos despedimos de Graça a quem devemos agradecer pela especial atenção. Adoramos a visita, foi super agradável e plena de informações.

De volta à estrada ainda tínhamos algumas tarefas a cumprir em Lisboa, fazer check in no hotel da Rua dos Sapateiros, devolver o carro e fazer uma visita à Garrafeira Nacional para preencher alguns espaços vazios na mala de vinho.

Clique para ampliar

Jantamos no Solar dos Presuntos. Normalmente dou sorte nos meus pedidos e a Lô fica de olho preferindo o meu prato ao dela, mas desta vez devo admitir que os Mimos de Porco Preto com Legumes Salteados e Batatas Fritas bateram no meu Polvo a Lagareiro. Não que o Polvo estivesse ruim, muito pelo contrário, estava delicioso, mas os Mimos eram algo além da perfeição. Nos fez esquecer toda a longa espera e o tradicional mau humor dos garçons. Acompanhamos com um Redoma Tinto 2007. Maravilhoso!

Último dia, nenhum compromisso. Só passear sem rumo certo e curtir Lisboa.

Para a despedida abrimos um Murganheira Bruto Vintage 2004, que acompanhamos com algumas fatias de presunto curado de porco preto do Alentejo gran reserva. Vamos sentir saudades destas coisinhas.

Amanhã dormiremos em casa. Depois de amanhã começamos a pensar nas próximas férias. Serão no sul da Itália. Só faltam 11 meses...

 

  • Rex Bibendi
  • Enoteca Decanter
  • Vinho Site