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A batalha contra o inimigo interno

03/11/2015::Daniel Chaves e Christovão Oliveira

A Bodega Aleanna é o projeto conjunto do consagrado diretor de enologia da Catena Zapata, ALEjandro Vigil, e da filha de Nicolás Catena, AdriANNA. O nascimento da bodega ocorre em 2009, quando os dois voltavam da Embaixada da Argentina em Londres, onde Nicolás tinha recebido o prêmio de homem do ano pela Decanter. Adrianna, historiadora que estava terminando seu PhD em Oxford, e Alejandro, chefe de enologia da Catena por 13 anos, conversavam sobre filosofia e outras paixões em comum quando surgiu a ideia de fazer um vinho em conjunto que, ao mesmo tempo em que expressasse seu respeito mútuo pela história e a tradição, mostrasse sua irreverência em relação ao “status quo”.

O nome dos vinhos tem uma relação direta com essa paixão pela Filosofia e pela História. Foi conversando sobre passagens históricas de Aníbal e Gengis Khan, que os dois concluíram que o nosso maior inimigo está em nós mesmos – é aquele que cerceia nossos impulsos e ímpetos, nos coloca medos e barreiras que nos impedem de realizar nossos sonhos e projetos. É este grande inimigo que nos impede de avançar, derrotar os inimigos externos e nos realizarmos. Segundo eles, a batalha contra nós mesmos é aquela de que nos lembramos ao fim da jornada, é aquela que nos define.

Os vinhos são feitos na tentativa de exprimir esta filosofia: um produto de dois românticos que buscam, através de um projeto de enologia autoral, sair da zona de conforto e usar ideias que fogem do padrão para criar vinhos que representem uma interpretação autêntica do terroir. Cuidado rigoroso com os vinhedos e baixa intervenção na bodega são alguns dos princípios eleitos para atingir este fim. Em pouco tempo eles já começaram a colher os frutos: seus vinhos arrebataram notas muito expressivas da crítica especializada, ganhando visibilidade mundial, e ganhando um status de bodega "cult".

A visita à Casa El Enemigo comprovou algo que foi o tema de várias conversas durante nossa viagem à Mendoza: o rumo que alguns produtores argentinos, especialmente novos talentos, têm dado na direção de vinhos mais frescos e com maior expressão do terroir.  Alejandro Vigil não é exatamente um novo talento – o seu papel na Catena Zapata lhe deu a reputação de maior nome da enologia argentina, sendo considerado pela revista inglesa Decanter em 2013 um dos 50 nomes mais importantes e influentes no mundo do vinho. E apesar de estar por trás de uma das mais tradicionais bodegas argentinas, ele é também uma das grandes forças deste movimento que está mudando um pouco a forma de se fazer vinho na Argentina.

Com tantas referências e prêmios, uma das nossas expectativas era de que Alejandro seria uma personalidade difícil, uma “estrela”, mas antes mesmo de chegarmos lá várias pessoas já nos tinham dito o contrário. De fato, nos deparamos com uma pessoa acessível e disposta a uma boa conversa. Alejandro nos recebeu de forma muita simpática e falou até de cervejas, nos contando que estava fazendo algumas mas que não estava se saindo muito bem (Tudo bem, Alejandro, com os vinhos que você faz, quem precisa de cervejas?). Aliás, Alejandro vive bem ali, no que ele chama de República de Chachingo, uma vila rural em Mendoza em que vizinhos cultivam vegetais e criam animais em um estilo de cooperativa - e isto diz muito a respeito de sua personalidade. É também interessante notar que todos na bodega nos passam essa forma descontraída e intimista de quem curte o que faz e abraça o ideal.

Laura Catena, irmã de Alejandro, já o descreveu como um louco, no sentido de ser uma pessoa inquieta, avessa a receitas e formalidades. Um bom exemplo de que a genialidade e um certo grau de loucura costumam andar lado a lado.

Alejandro nos falou ainda dos ovos de concreto que se veem logo ao lado do restaurante, e se mostrou bem realista: disse que é uma opção interessante para a fermentação e que tem seus benefícios - especialmente para vinhos brancos - mas deixou claro que não se trata de algo revolucionário com alguns sugerem.

A casta que mais despertou a atenção de Alejandro é a Cabernet Franc, exatamente pela sua qualidade de expressar o terroir. Ele nos explicou que realiza a colheita em pelo menos sete momentos diferentes, criando um blend de uvas com diferentes pontos de maturação. E isso se reflete claramente no frescor dos vinhos degustados, bastante diferenciado do padrão dos vinhos mendocinos – já que nas primeiras colheitas as uvas - menos maduras - aportam uma agradável acidez aos vinhos. É surpreendente, entretanto, que não se nota um caráter “verde” neles.

Não por acaso ele é o grande responsável por chamar atenção para esta casta na região ao obter 97 pontos de Parker com o seu Gran Enemigo do vinhedo Gualtallary, na safra de 2010 - a maior pontuação já dada a um Cabernet Franc por este crítico. E a safra seguinte se saiu ainda melhor, com o mesmo vinho recebendo surpreendentes 98 pontos de Parker. Com outros bons exemplares da casta surgindo, especialmente no terroir de Gualtallary, muitos já falam na Cabernet Franc como a segunda casta de Mendoza.

Seguimos com um almoço delicioso no pequeno e aconchegante restaurante, acompanhados dos vinhos da linha El Enemigo e Gran Enemigo que nos deixaram uma certeza: Alejandro e Adrianna não estão só enfrentando bravamente seus inimigos internos, mas os derrotando de uma forma avassaladora!

Vinhos degustados (clique para ver avaliação):

El Enemigo Chardonnay 2012

El Enemigo Bonarda 2011

El Enemigo Cabernet Franc 2011

El Enemigo Malbec 2011

Gran Enemigo 2009

Gran Enemigo Agrelo Single Vineyard 2010

Gran Enemigo Gualtallary Single Vineyard 2010

 

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