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Bacco, ora pro nobis
Itália
Christovão de Oliveira Junior
Degustar é preciso!!

Depois de deixar Bolgheri resolvi curtir pelo menos por pouco tempo cada cidade que me atraísse. Resolvi me deixar levar pelo instinto; ser levado pelo coração. Subir cada colina, seguir cada placa de vinícola que me atraísse, seja pelo nome seja pelo pressentimento.

Subo a colina ao redor de Bolgheri apreciando uma paisagem nova. Além das videiras, muitas e muitas oliveiras. Em muitos locais as fileiras de videiras são intercaladas com filas de oliveiras; diversas tonalidades de verde que atraem e encantam.

Aqui as videiras quase todas já foram colhidas. Quase todas, ao contrário do Piemonte, são separadas da estrada por cercas. Ainda bem que aquelas que ainda possuíam uvas, não eram cercadas e pude, em cada uma delas, provar do fruto do desejo. Saio das uvas originarias da Itália e encontro as nossas conhecidas Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. Não que eu seja um especialista na identificação de uvas, mas muitos vinhedos possuem placas indicativas da casta plantada, o que torna a identificação automática.

Em um alto de colina, com visão de videiras e oliveiras, paro o carro em um acostamento, abro uma garrafa de um Chianti Clássico San Jacopo ( Castello Vicchiomaggio ) que havia comprado em Bolgheri. Coloco em meu mp3 player o som de Pink Floyd em The Dark Side of the Moon, desembrulho um sanduíche de presunto cru e fico mágicos instantantes me deliciando com o vinho, a musica, o sanduíche, a paisagem e a chuva que cai no parabrisas. Momentos nos quais o tempo perde a dimensão e os sentidos superam sensações corriqueiras. Momentos impossíveis de se descrever com expressões do cotidiano. Lembro com carinho e com saudade de enoamigos queridos que com certeza saberiam compreender e principalmente compartilhar a emoção e o prazer destes momentos. Daniel, Alessandro, Juliano, Cláudio, Reinaldo, Dulce, mestre Gerson Lopes, Edite, Pollyana...ah, graças a Deus, são tantos e tão queridos e especiais quanto este momento.

Voltar a dirigir é quase tão difícil quanto foi difícil deixar Bolgheri; mas muitos novos caminhos ainda existem a ser percorridos. Colinas, cantinas, cidades medievais e enotecas existem às dezenas por estes caminhos de sonho. Navegar é preciso...degustar também é preciso!!! Aqui, ao contrário dos gregos antigos, o “preciso” tem o sentido não de exatidão e precisão, mas sim de necessidade, de vontade!!!

A partir deste momento, o dia foi uma sucessão de descobertas: Castagnetto Carducci, Monteverdi, Sasseta e Suveretto. Cidades cujo nome jamais ouvira, desfilam uma após a outra, cada uma mais cheia de encantos. Cidades saídas de imagens cinematográficas e oníricas. Cidades com suas igrejas, muralhas, castelos e ruas que transbordam tradição, orgulho e pujança. Locais que são capazes de inebriar mais que seus próprios vinhos. Em cada uma delas uma tradição na elaboração de vinhos. Em cada uma delas enotecas e bares que apregoam vender o melhor vinho da região e, às vezes, da Itália. Impossível falar de cada uma delas sem escrever tanto que iria cansar vocês por demais. Escolho falar da ultima que encontrei neste dia e pela qual me apaixonei: Suvereto. Cidade cercada por muralhas e guardada por uma fortaleza. Cidade da igreja de San Giusto, no coração da DOC Val di Cornia. Andar por estas vielas vendo construções medievais me faz sentir transportado para um outro mundo; mundo de encanto e fascinação. Suvereto é o ambiente no qual quero ficar o maior tempo possível, curtindo cada instante que por aqui estiver. Decido que quero percorrer estas ruas durante a noite, mesmo que minha companheira, a chuva da Toscana, insista em me acompanhar. Entro em uma enoteca e peço referencia de um local para dormir e logo me indicam diversas Aciendas Agrícolas nos arredores da cidade. Decido ir logo procurar um destes locais e menos de cinco minutos depois de deixar a cidade vejo uma placa “Acienda Agrícola Bulicella – Vino, Olio e Agriturismo”; decido que é ali que vou ficar. Enquanto preencho minha ficha na recepção, conversando com a recepcionista, falo que sou brasileiro e que estou na Toscana quase que exclusivamente pelos vinhos. Sinto então uma mão em meus braços, e uma voz que diz: que ótimo, então vamos visitar a cantina e conversar sobre vinho e futebol!!! Era um dos ajudantes do enologo da vinícola, que além da paixão pelo vinho é, também, um apaixonado pelo futebol brasileiro. Antes mesmo de terminar de preencher a ficha, saio com ele, omitindo o meu pouco interesse pelo futebol; acho que o pouco que sei é suficiente para manter uma conversa que vou tentar dirigir, sempre que puder, para o vinho.

Ficamos uma hora e meia passeando pela Cantina, bebendo os vinhos

Bulichella Buli White ( 100% Vermentino), Coldipietrerose ( 80% Cabernet Sauvignon e 20% Merlot), Tuscanio Red ( 90% Sangiovese e 10% Merlot ) e

Rubino ( 50% Sangiovese 25% Merlot e 25% Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc).

O Coldipietrerose é um verdadeiro néctar, vinho de excelente qualidade; dos melhores que bebi aqui na Itália. Felizmente nesta uma hora e meia, a conversa foi muito mais sobre vinho do que sobre futebol. Decididamente este seria um dia para ficar na memória.

Consigo finalmente ir para o meu quarto, com vista para as videiras de Sangiovese e de Cabernet sauvignon tomar meu banho, para em seguida ir caminhar pelas ruas de Suvereto à noite. Quando saio do quarto, vejo que decididamente aquele era um dia especial pois a chuva que caia incessante desde o dia anterior havia parado e até algumas estrelas tímidas apareciam no céu para contemplar o meu contentamento.

Volto para dentro dos muros de Suvereto e fico por algum tempo a perambular pelas vielas medievais, iluminadas por lâmpadas amarelas, tomando, no gargalo ( me perdoem, mas esta é a realidade ) o resto do meu San Jacopo.

Meu jantar é uma pizza de prosciutto com tartufo bianco ( presunto com trufas brancas ) acompanhado por um vinho da casa feito de Sangiovese e Cabernet Sauvignon . Parece um manjar dos céus!!

Ah Toscana, degustar é preciso!!!!

Depois do jantar ainda perambulo por mais uns quarenta minutos pelas vielas e becos da cidade quase deserta até que a chuva volta a cair fininha, encerrando um dia de vinho, sonhos e magia. Um dia especial na Toscana.






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