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Bacco, ora pro nobis
França
Christovão de Oliveira Junior
O Prazer de desvendar

Deixar a região de Champagne foi algo muito difícil. Não costumo programar muito as minhas viagens, justamente para poder prolongar o que me dá prazer, e encerrar o mais rápido possível aquilo que me aflige. Mas, assim como queria ficar, queria muito poder curtir os dois últimos dias da feira de vinhos de Colmar, na Alsácia. Poder participar de uma feira de vinhos na França ia ser a realização de mais um grande sonho.

Saí de Reims, lembrando de Manuel Bandeira:
"O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos." (Canção do Vento e de Minha Vida).

É Manuel, o vento vai levando um monte de coisas, mas nossa vida fica cada vez mais cheia.

Esta estada de apenas dois dias e meio em Champagne, encheu minha vida definitivamente de aromas, de sabores e emoções que jamais me deixarão. "Espere por mim Champagne, espere que eu volto já".

Vou dirigindo com os olhos no futuro e o coração no passado. Com o correr do tempo, as belezas da região da Alsácia fazem com que os dois estejam juntos novamente. Impossível resistir às belezas naturais desta região fantástica. Tenho pressa de chegar, pois a feira começa às 13 horas, mas as belezas da região diminuem cada vez mais minha velocidade e tornam cada vez mais constantes as paradas para fotos e para contemplação.

Quando vou me aproximando de Colmar e os vinhedos Alsácianos tomam toda a paisagem; aí então é quase impossível seguir no ritmo necessário. Vinhedos, castelos, igrejas, vilarejos se misturam em uma harmonia que fascina. Ah, como foi difícil seguir em frente.

Mas, digamos assim, o dever me chamava. Chego ao hotel, coloco as malas no quarto, pego as informações para encontrar o Parque de Exposições e... Vamos lá!!

Antes de comentar sobre os vinhos que lá encontrei, aqui vão algumas "curiosidades" sobre a feira:

Em primeiro lugar, a Feira de Vinhos de Colmar é um evento monstruoso. São centenas de expositores; só que das centenas de expositores, muitos são expositores de equipamentos e implementos para a vitivinicultura. Vocês podem imaginar aqui na França a quantidade destes produtores. Para resumir, produtores de vinho da Alsácia deviam existir cerca de 100 com um total de 300 a 400 vinhos. Além disso, a feira ocorria em conjunto com uma exposição de mais um milhão de coisas: móveis roupas, bijuterias, cozinha maluca, etc., etc.!

Mas vamos nos resumir aos vinhos: outra coisa importante, todas as degustações eram pagas!! Nada de beber de graça. Por três amostras de vinho normal, pagava-se cerca de 3 euros. Três amostras de vinho RESERVE, ou CREMANT D"ALSACE pagava-se cerca de 4 euros. Os vinhos VENDAGE TARDIVE e SGN (Seleção de Grãos Nobres) eram vendidos de 3 a 4,5 euros a dose!! Alguns até 7 euros a dose!!

Outro fato, a "coisa" na qual os vinhos eram servidos, mais parecia um copo de pinga. Melhor nem comentar, uma imagem vale mais que mil palavras!!






É exatamente o que eu qualificaria de "bonitinho, mas ordinário"!!

Em algumas barracas, depois de alguma "conversa" eu conseguia beber em uma taça muito sem vergonha. Em outras, nenhuma chance, ou era naquele copinho, ou não era em lugar nenhum.




Diga-se de passagem, que a taça da foto 2 é a taça típica da Alsácia, em quase todos os restaurantes, esta é a taça na qual são servidos os vinhos.




Para os espumantes, pelo menos havia uma taça pequenininha, um pouco mais adequada, mas muito longe do ideal.




Os vinhos ficavam todos dentro de uma grande geladeira horizontal, eram todos numerados e, a partir de um catalogo, a gente escolhia o vinho e o atendente servia (e cobrava).




Eu pedia minhas amostras, de três em três ou de quatro em quatro e ia para uma grande mesa e ficava ali apreciando os vinhos, fazendo comparações, fazendo minhas anotações, às vezes vendo todo o movimento em volta e na maioria das vezes em total êxtase... Mais uma vez, sobre o movimento em volta, a imagem fala mais que as palavras.




Produtor mesmo, nenhum!! Pelo menos que eu tivesse visto ou que tivesse acesso. Os atendentes, sequer sabiam qualquer informação sobre os vinhos. Sabiam servir, mais ou menos, e sabiam cobrar. Nem mais, nem menos.

O máximo que eu conseguia deles, depois de comprar umas quinze doses, era obter doses mais generosas e uma ou outra "cortesia". Ai que saudades da EXPOVINIS!!!!

Brincadeiras a parte, os vinhos disponíveis eram de excelente qualidade. Praticamente todos os produtores que eu havia pesquisado e dos quais tinha ótimas referencias estavam ali presentes. Alguns não apresentavam seus vinhos TOPs, mas a maioria apresentava o que de melhor estava avaliado em guias e revistas francesas.

Uma feira na Alsácia é uma imersão em vinhos e castas completamente diferentes do que estou acostumado a beber. Aqui na Alsácia, apesar de existirem vinhos de diversas castas, 7 são consideradas as uvas emblemáticas da região: Sylvaner, Pinot Blanc, Tokay Gris, Gewurztraminer, Muscat D'Alsácia, Riesling e Pinot Noir; 6 uvas que originam vinhos brancos e a nossa tradicional Pinot Noir. Meu objetivo ao vir à Alsácia, além de conhecer estas paisagens deslumbrantes, era aprofundar o meu conhecimento nos vinhos brancos.

Aproveitar que estou sozinho e me dedicar inteiramente aos vinhos brancos, pois a maior parte dos meus amigos quase que só se interessam pelos tintos. Principalmente quando vão para o exterior. Então, lá estava eu para o que pretendia ser um aprofundamento, mas que na realidade se tornou quase que uma iniciação. Ah meu Deus, que vinhos celestiais! Os Gewurztraminer Grand Cru não se pareciam com nada que eu houvesse antes tomado. Tinham um aroma floral que eu pensava conhecer, mas que sequer imaginava. Os Riesling Grand Cru, pela mesma forma, apresentavam uma mineralidade, uma complexidade que me fizeram entender porque muitos críticos consideram a Riesling a rainha das uvas brancas. Que vinhos soberbos, que néctares!! Muitas vezes eu passava minutos como se estivesse levitando sobre toda aquela confusão, sobre todo aquele barulho. Muitas vezes, de repente, eu me dava conta que a minha mesa já estava completamente cheia de pessoas, ou, então, que quase todos já haviam saído: eu sequer houvera reparado nisto, tão concentrado estava em meus vinhos e em minhas anotações. A cada gole exultava pelo que estava bebendo.

Quanto aos estupendos vinhos de sobremesa Vendages Tardives e Selection de Grains Nobles (Colheitas Tardias e Seleção de Grãos Nobres), com os quais eu encerrava o meu dia, ah era o êxtase!! Vinhos de se tomar de joelhos. Vinhos que me deixavam extasiado por sua complexidade, por sua elegância e todo o seu conjunto. Não sei o que me aguarda em Sauterness, mas se existir algo melhor do que isso.....

Justiça seja feita aos vinhos das demais castas brancas, cada um com a sua tipicidade, cada um com seus encantos, também faziam o seu papel de me surpreender, de me encantar, de me fazer cada vez mais fascinado por esta região.

Eu ficava brincando de comparar: uma hora pegava três Riesling sendo um comum, um reserva e um Grand Cru; depois pegava um Riesling, um Gewurztraminer e outro Sylvaner; depois pegava um Pinot Gris, um Muscadet D'Alsace e um Gewurz; depois..... etc, etc, ficava comparando, ficava tentando diferenciar as especificidades... ah, que diversão mais cheia de prazer.




Quanto aos espumantes, apesar de encontrar alguns Cremant muito interessantes, eles foram os únicos que não me encantaram; será que não bebi os corretos? Só escolhi aqueles considerados como os melhores pelos guias franceses, mas... nada que me tomasse pelo coração.

Alguém poderia me perguntar, e os tintos? Bem, eu tinha mais dois dias de Alsácia pela frente. Iria, ainda, visitar diversos produtores, então, vamos deixar a Pinot Noir para um próximo capítulo.

Foram dois dias nos quais eu desfrutei de um prazer difícil de descrever e difícil de repetir.

Participar desta feira, com todas as suas peculiaridades, foi certamente um dos pontos mais altos desta viagem que está apenas começando. Confesso que no domingo eu já havia esquecido dos dias passados em Champagne (que me perdoe Saint Remy!!!). Não que eles tivessem sido esquecidos, ultrapassados ou qualquer coisa semelhante; mas o fato é que descobrir, desfrutar e me apaixonar pelos vinhos da Alsácia foi algo que me pegou pelo coração, pele mente e pela alma. Para quem, como eu, ama os vinhos, sem restrições de raça (hahahaha!!!), desvendar um pouco destes brancos fantásticos foi algo que jamais esquecerei.

Que me fez ainda mais atraído e ainda mais disposto a buscar os prazeres que estes vinhos especiais podem nos trazer.








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