No reino de Sete Rainhas
Mais um dia para vagar e degustar na Alsacia. Mais um dia para me encantar com vinhos e paisagens. Antes mesmo que o dia acabasse de nascer eu já estava na estrada de forma a aproveitar o maximo possível desta região pela qual me apaixonei.
Frutas e barras de cereais me ajudariam a esperar até que eu encontrasse a primeira Boulangerie aberta para meu café da manhã.
Ainda trazia na boca o gosto de minha degustação privada na noite anterior logo após o jantar ( no quarto do hotel): 2 Gewurztraminer Grand Cru e um outro que não era Grand Cru. Para terminar dois Selection de Grain Nobles ( um de Tokay Pinot Gris e outro de Tiesling). Aliás, me esqueci de tirar uma foto das garrafas “vestidas”, pois a melhor forma que encontrei para fazer a degustação às cegas sem ter que sair do hotel foi utilizar meias ( limpas, para não adicionar complexidade aos aromas) e amarrar o gargalo com fio dental!!! Com certeza deveria ter tirado uma foto delas assim vestidas ( me perdoe Bacco!!!).
Acho que não preciso dizer que os restos de TODAS as garrafas estão me esperando na geladeira para que eu verifique como elas reagiram a 24 horas de contato mais intenso com o oxigênio. Haverá uma segunda degustação às cegas para estas maravilhas.
Para aqueles que adoram um Gewurz, o melhor da noite para mim foi um Domaine Schlumberger Grand Cru Kitterlé! Vamos ver como ele se comporta na segunda noite.
Para aqueles que gostam de um Gewurz, devo comentar que eu não conhecia o real Gewurztraminer até chegar aqui na Alsacia. Os brasileiros e sul americanos que vinha bebendo podem ser tudo, menos o típico Gewurztramioner alsaciano. Agora sei porque a casta é reconhecida como uma das mais florais do mundo. Sei o que é um vinho branco intenso, saboroso, redondo e de final prolongado e excepcional. A diferença se deve apenas ao terroir ? Confesso que não sei, mas com certeza este será um dos meus temas a pesquisar proximamente. Aqueles que conhecem mais do eu podem me ajudar nesta questão ?
A Alsácia, ao contrário das demais AOCs francesas, exibe no rotulo o nome da casta.
Os vinhos, com raras exceções ( comentadas à frente) são elaborados de uma única casta.
As sete castas alsacianas são: Riesling, Gewurztraminer, Muscat, Pinot Blanc, Tokay Pinot Gris, Sylvaner e Pinot Noir.
Muitos enofilos simplesmente ignoram os vinhos que não sejam elaborados por Riesling ou Gewurztraminer e ao fazer isto cometem uma grande injustiça com as demais castas.
Elas dão origem a vinhos com grande tipicidade e que, quando bem feitos, podem ser considerados como excepcionais. O vinho originado da Sylvaner é um vinho fresco e gastronômico, muito fácil de beber. O Pinot Blanc ( em geral tratado como sinônimo de Auxerrois, apesar de não o ser) dá origem a um vinho de bom corpo e bastante nervoso. Uma delicia de ser bebido no final das manhãs ensolaradas que encontrei por aqui. Aliás a área desta casta é de cerca de 22% da área total da denominação ( mais que a Gewurztraminer e o mesmo tanto que a Riesling). A Muscat D’Alsace ( 3% da área) dá um vinho seco de corpo ligeiro e com um sabor extremamente frutado. Os melhores Muscats são vinhos elegantes, muito agradáveis e com uma boca frutada e muito agradável. O Tokay Pinot Gris foi, para mim, a maior e melhor surpresa. Opulento, ótimo corpo, longo na boca e com aromas muito complexos, apresentando muitas vezes um defumado que dava um toque fascinante a este vinho excepcional. Alem do vinho seco, esta casta oferece excelentes Vendages Tardives e Selection de Grains Nobles. O casamento da Pinot Gris com a podridão nobre é praticamente perfeito. Aqueles que amam vinhos de sobremesa vão se apaixonar por um Tokay Pinot Gris SGN. Podem ter certeza disto, a aposta é garantida.
Existe uma outra casta na Alsacia que é a Chasselas, mas ela não dá origem a vinhos varietais. Em geral ela entra em conjunto com as outras castas para dar origem ao EDELZWICKER que é um vinho do dia a dia, muito fácil de beber, com um frescor muito agradável, vivo e feito para se beber jovem.
Apesar de já haver bebido vinhos demais destas castas na Feira de Colmar, decidi que meu segundo dia de visita pelas vilas e produtores da Alsácia seria dedicado quase que exclusivamente a estas castas. Afinal, um dos grandes objetivos de minha viagem à França era andar por caminhos menos falados, ou como diria Belchior : “...andar caminho errado, pela simples alegria de ser!”. Alem do mais, um dos maiores prazeres que encontro no mundo do vinho é o de descobrir tesouros pouco divulgados. E, no campo dos tesouros, a Alsacia estava me proporcionando alguns dos mais valiosos.
Apesar de estar com o forte propósito de me dedicar aos vinhos brancos, não pude deixar de experimentar os tintos feitos com a Pinot Noir. Lembrei muito de meu Mestre e grande amigo Gerson Lopes, pois chegamos a conversar sobre eles. Pois é meu mestre, como sempre você tem razão, a maior parte dos Pinots da Alsacia são vinhos que nem de longe lembram toda a elegância desta casta. A qualidade media chega a ser decepcionante. Entretanto, pode acreditar que aqui eu descobri alguns vinhos bem interessantes. Um em especial que foi o Rouge D’Ottrott. Aliás, com ele aconteceu algo de interessante: eu estava na casa do produtor Jean Charles Vonville e ele me falava de seus vinhos. O que mais me atraiu, foi um vinho que passa quinze meses em barrica e tem o nome do filho dele, Stephane. Pois bem, enquanto bebíamos e conversávamos, ele ia abrindo as suas correspondências. Ele havia me passado alguns guias franceses para mostrar as citações de seus vinhos e enquanto eu folheava o Guia Hachete de 2006 e lia a citação, ele abria uma carta deste guia, informando que nova citação iria aparecer no guia de 2007.. Ele ficou super feliz e me fez participar da sua comemoração. Comemoração simples, mas significativa, abrir varias garrafas dos seus melhores vinhos para experimentarmos e ele me contar de cada um deles, como se falasse dos seus filhos; mas, afinal eles são os seus filhos, ou não?
Fiquei por dois dias a perambular ( às vezes a cambalear) por estas vilas celestiais.
Avaliar o vinho daqui, neste ambiente é covardia. A magia do lugar vai sempre falar mais alto e transformar o razoável em muito bom e o bom em excelente!! Aqui, mesmo um vinho rose tomado em um bar, vendo estas ruas e casas de contos de fada, pode ser uma maravilha.
Até esmo aquele Rose servido em uma jarrinha de vidro que a gente toma sentado ao sol assistindo a vida acontecer de leve nas cidade.
Mas o melhor, é que grande parte deles realmente é uma maravilha.
Aqui na Alsacia, como diria Vinicius de Moraes, “são demais os perigos desta vida para quem tem paixão!” Gostar de vinho por aqui significa ter muitas e muitas tentações. Tentar, em apenas 5 dias, percorrer todos os caminhos possíveis significa tentar abraçar o céu com as mãos. É impossível.
Percorrer as estradas Alsacianas, caminhar despreocupadamente por ruas fantástica em um dia ensolarado é uma verdadeira bençao! Por maior que fossem as minhas expectativas quanto a região, elas foram todas superadas em muito.
Apesar de saber que as comparações nem sempre são válidas, nem sempre fazem sentido, uma providencia que cuidei com carinho foi a de comprar 7 garrafas especiais para levar para a minha próxima etapa: Alemanha. Poder colocar frente a frente Rieslings e Gewurztraminers alsacianos e alemães seria uma experiência excitante. Que dizer então de uma degustação de Vendages Tardives, Selection de Grains Nobles, Eiswein e Trockenbeerenauslesse ?
Sei não, mas acho que nas torneiras do paraíso, devem correr líquidos muito semelhantes a estes. Afinal de contas, melhor que isto........ah, muito difícil!!!
Eh, vou ter que repetir Vinicius... “são demais os perigos desta vida, para quem tem paixão!!”